Entrevista com Vladimir Seixas, realizador do documentário independente “Atrás da Porta”

não é que o realizador deva filmar sem recursos para manter uma independência como também não é que o realizador deva se inserir numa lógica de indústria cultural e se profissionalizar no pior aspecto da palavra, como tentam vender atualmente. É que cada filme possui necessidades específicas e a forma de produção é um fator fundamental disso.” – Vladimir

Realizamos uma breve entrevista via email com o carioca Vladimir Seixas, realizador do documentário independente “Atrás da porta”, longa que registra a experiência das famílias sem-teto do Rio de Janeiro de invadir prédios abandonados e criar novos espaços de moradia.

O documentário de 92 minutos – realizado em 2010 – foi produzido sem aporte de patrocínios, de maneira livre e independente, a partir do convite dos próprios moradores de ocupações do Rio, por conta da boa recepção do filme anterior de Vladimir, o curta “Hiato” (20 min), que mostra moradores de favelas e integrantes do movimento dos sem-teto juntamente com alguns estudantes em um ato simbólico em um shopping de classe média alta da cidade.

Durante esses processos de aproximação com os integrantes do movimento dos sem-teto, Vladimir conheceu o fotógrafo Chapolim, morador de uma ocupação, que acabou se tornando parceiro do realizador no projeto e o assistente de direção do doc “realizando as filmagens essenciais ao projeto de uma maneira muito forte e próxima”, segundo Vladimir.

O documentário – disponível na íntegra no Youtube, dividido em 7 partes – expõe visceralmente, mas sem nenhum apelo desnecessário e com sóbria sensibilidade, os desastres sociais contemporâneos muitas vezes perpetrados pelo Estado e, por isso, legitimados socialmente. Revela depoimentos fortes e politicamente consistentes de moradores que já sofreram despejos forçados, dos moradores que continuam nas ocupações e de defensores públicos envolvidos nos processos de despejo. Enfim, o filme questiona a legalidade dos processos de despejo mas, sobretudo, denuncia o solapamento da dimensão Ética e dos valores humanos e sociais básicos violados por esses processos de despejos autoritários, que se dão em nome de uma revitalização urbana planejada não para o cidadão, mas para a estrutura capitalista especulativa de estímulo ao consumo que renova e reforça as dinâmicas contínuas de exclusão social dos mais pobres.

Abaixo confira a primeira parte do documentário e a seguir a entrevista com o realizador Vladimir Seixas, que já pensa em continuar um projeto iniciado na Bahia, com imagens do Vale do Capão, na Chapada Diamantina. ( Acesse playlist no Youtube, com as sete partes).

DOCUMENTÁRIO “ATRÁS DA PORTA” l primeira parte:

 

A ENTREVISTA:

Bahiadoc: Como se deu o processo de escolha e aproximação da temática do doc “Atrás da Porta”? E a abordagem escolhida? Parece-nos que vocês passaram algum tempo junto aos sem-teto, em convivência. Quanto tempo? Poderia falar um pouco sobre tal processo?

Vladimir: O longa Atrás da Porta aconteceu em decorrência de um curta que realizei ainda na escola de cinema (Escola Darcy Ribeiro), chamado Hiato, em que moradores de favelas e integrantes do movimento dos sem-teto juntamente com alguns estudantes realizaram um ocupação simbólica, um ato, em um shopping de classe média alta aqui do Rio de Janeiro. Aqui ele está na íntegra: (Blogue da Gume Filmes) http://gumefilmes.blogspot.com/2010/07/hiato.html

O curta foi muito bem recebido pelos moradores das ocupações aqui do Rio, então eles mesmos me fizeram o convite de filmar as ocupações. Nesse processo conheci um fotógrafo e morador de uma ocupação chamado Chapolim que virou meu parceiro no projeto realizando as filmagens essenciais ao projeto de uma maneira muito forte e próxima. Grande parte do impacto de certos momentos do filme se devem a sua maneira de filmar, ele é um ótimo fotógrafo e acabou sendo entrevistado no Doc. A relação com os os moradores foi sendo construída no processo mesmo de filmagem e acabou impressa nas imagens. A duração do processo girou em torno de um ano e se iniciou com os registros de novas ocupações e de despejos. A partir dessas imagens fui elaborando um roteiro durante mesmo o processo de montagem e resolvi ir atrás de alguns moradores despejados, de alguns moradores que continuam nas ocupações e que me pareciam ter uma leitura política conjuntural forte e consistente. E por fim atrás dos defensores públicos envolvidos nos processos de despejo.

Bahiadoc: Houve tentativas de buscar apoios intitucionais públicos ou privados para a realização do doc? – Ou fez parte da escolha da abordagem a iniciativa livre e independente?

Vladimir: As filmagens se iniciaram de maneira urgente, pois ia acontecer um despejo e ainda não tinha câmera para registrar. Um amigo, montador do Hiato, me emprestou sua câmera e comecei a filmar. Durante o processo pude comprar uma câmera. A dele era no formato MiniDv e já a que comprei era HDV e essa mistura de formatos, apesar de comprometer uma certa homogeneidade das imagens, diz muito sobre o processo; eu particularmente gosto muito dessa dimensão sutil impressa nos registros e o documentário carrega inúmeras. Diz respeito à própria condição do dito documentário.  Tem um autor chamado Comolli* que escreve sobre a importância de se estar preparado e aberto às surpresas do real, sob seu próprio risco; para além da prisão das roteirizações.  As condições materiais do realizador precarizado já são em uma primeira instância a direção formal daquilo que se impõe como inevitável nos registros do mundo. Lembremos a defesa estética de Glauber acerca da precariedade de Aruanda. O que quero dizer, não é que o realizador deva filmar sem recursos para manter uma independência como também não é que o realizador deva se inserir numa lógica de indústria cultural e se profissionalizar no pior aspecto da palavra, como tentam vender atualmente. É que cada filme possui necessidades específicas e a forma de produção é um fator fundamental disso. Certamente outros filmes precisam de muitos recursos para serem realizados, o problema é partir de uma premissa universal, ou seja, afirmações do tipo “meus filmes precisam sempre demonstrar uma riqueza de produção”… como o inverso também. Perde-se a singularidade das obras e com isso tendem a surgir esvaziadas.

No caso do Atrás da Porta era um filme com uma minoria, pela minoria e em certa medida para as minorias que são os Sem-teto, de maneira extremamente parcial –  como tentar impor uma obra através de meios majoritários? Todo o processo e consequentemente todo o filme estariam comprometidos. Não gosto de pensar em termos de vantagens e desvantagens como também acredito que essa importante questão ultrapassa qualquer juízo de valor. O fato é que as escolhas de produção dialogam diretamente com as instâncias estéticas e no caso do Brasil que fique claro que importantes realizadores e críticos se debruçaram sobre a importância de não se tentar mascarar as precariedades e extrair delas sua potência. Assim como o cinema surgiu e se estabeleceu como uma arte diretamente ligada ao dinheiro pelos altos custos de realização ela também se constituiu como uma espécie de história de martírios pessoais em que muitos realizadores insistiam em filmar.

Não nos iludamos, pois a plataforma digital não se apresenta como resolução definitiva das dificuldades. Ela só ameniza algumas etapas de maneira parcial, pois temos alguns processos digitais mais caros que que os processos ótico-químicos. E também alguns festivais de cinema tentar impor o conceito de cinema digital a partir de uma uma determinada resolução de imagem (2k pra cima) o que inviabiliza a maioria dos realizadores independentes, pois câmeras com essa resolução são caríssimas para alugar. E finalmente não resolve a maior dificuldade que é a distribuição. Essa etapa melhor não entrar, pois não vamos sair… é a maior dificuldade que nosso país vive no caso do cinema.

Enfim…

* Jean-Louis Comolli, escritor, editor e diretor francês, foi editor-chefe do Cahiers du cinéma de 1966 até 1978. (Nota do Bahiadoc).
Bahiadoc: você já acompanhava o processo de desapropriações no Rio? Ainda acompanha os movimentos? Mantém projetos de novos docs com dinâmica independente e com temáticas políticas?

Vladimir: Acompanho desde a época de minha graduação onde tinham alguns estudantes que apoiavam as ocupações. Acontece que as questões estão se agravando a medida que o processo chamado de revitalização avança. Tentam impor um legado de desapropriações para as famílias pobres que estão a muito tempo no centro e que não se coadunam coma nova realidade de hipervalorização imobiliária. A pauta dos movimentos de luta pela moradia popular é que para cada 3 imóveis construídos nessa região 1 seja de moradia para famílias de 0 a 3 salários mínimos. E que não se consiga remover essas famílias para a periferia, pois as condições e oportunidades de trabalho são muito melhores no centro. Com relação aos novos projetos, eu fiz algumas filmagens no Vale do capão, aí na Chapada Diamantina na Bahia, onde mora meu pai. Vou trabalhar essas imagens em janeiro, mas sei que ainda serão feitas novas imagens, pois essas ainda são insuficientes e ainda não encontrei o caminho delas. Deve ter uma abordagem declaradamente políticas sim, mas é especulação e vontade, pois ainda não tenho quase nada.

_________________

Vladimir Seixas nasceu no Rio de Janeiro em 1981. Formado em Filosofia pela UERJ e em Direção Cinematográfica pela Escola de Cinema Darcy Ribeiro. Teve seu curta de estréia, “Hiato:”, selecionado para 25 festivais nacionais e internacionais, onde recebeu 12 prêmios. Atualmente, finaliza mestrado em Estética e Filosofia da Arte na UERJ e Montagem Cinematográfica na Escola de Cinema Darcy Ribeiro.

Documentário “Atrás da Porta”

Produção Independente | COR |  NTSC  | 2010  | HD

VLADIMIR SEIXAS | Direção

CHAPOLIM | Assistência de direção

Blogue do documentário: http://www.filmeatrasdaporta.blogspot.com/

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