Cinematógrafo no Cine XIV de novembro, dia 11, exibe “A Ghost Story”, de David Lowery

 

 

Nota dos curadores Fabricio Ramos e Camele Queiroz:

Ela (Rooney Mara) e ele (Casey Affleck) são um jovem casal que se prepara para mudar de casa, quando ele morre, num banal acidente de carro. Ela tenta superar a perda repentina, enquanto vive o luto. Ele, entretanto, reaparece na forma de um fantasma silencioso, e volta a habitar a casa em que moravam, oculto em uma dimensão inacessível para ela. Através de deslocamentos temporais, o filme expande o drama pessoal do fantasma até um nível cósmico, oscilando entre apegos às histórias de uma vida e o vislumbre da eternidade. Logo somos instados a acompanhar a “existência” de um fantasma de aspecto cômico, mas que nos atrai por sua dimensão trágica e por sua presença muda e enigmática.

Difícil de classificar, “A Ghost Story”, escrito e dirigido por David Lowery, recorre à iconografia dos fantasmas de quadrinhos infantis: o lençol branco com dois buracos vazios na altura dos olhos. Mas o fantasma de Affleck, embora mudo (será mesmo Affleck ali o tempo todo?) transmite, em seu silêncio e passividade, uma melancolia penetrante que, de imediato, embaralha os códigos da representação arquetípica.

Aliando temas metafísicos com uma subversão paródica de filmes de fantasma, “A Ghost Story” tem sido apontado como um entre vários filmes de um sub-gênero emergente, classificado como pós-terror, que substitui os sustos e as criaturas horripilantes por dramas existenciais em relação com os medos sociais profundos (A Bruxa, de Robert Egger, é um exemplo, e It Comes at Night, de Trey Edward Shults, outro).

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De fato, não obstante a atmosfera indie, uma das cenas de “A Ghost Story” reproduz as típicas assombrações do tipo Poltergeist, embora pelas vias de uma rotação de perspectiva que desloca o lugar do fantasma na ação. Outras referências estéticas mais ou menos evidentes são os filmes de Apichatpong Weerasethakul (certa naturalização do sobrenatural me lembrou “Tio Boonmee”), e os filmes de horror psicológicos de Kubrick, em The Shining, e de Polanski, especialmente o da chamada “trilogia do apartamento”, destacando o famoso O Bebê de Rosemary.

Mas, muito embora o filme de Lowery nos apresente efetivamente uma história de fantasma, ele desvia das convenções do cinema de terror, ignora seus códigos e regras básicas, e constrói um filme sobre a transitoriedade das coisas e a fugacidade de tudo, em contraste com a nossa vontade de permanência e não aceitação da finitude que nos encerra, tal como faz com o fantasma do filme, em uma temporalidade múltipla e sem fim, sem qualquer finalidade que não seja uma desesperada espera por algo que pode não ser nada.

Podemos, se quisermos, avaliar se “A Ghost Story” traduz, com eficácia cinematográfica, uma reflexão filosófica ou poética. Ou, criticamente, discutir se certos elementos estéticos e escolhas narrativas incorrem em clichês pontuais. Trata-se, aliás, de um filme bem modesto, sob todos os aspectos. Mas a amplitude de seus temas, mesmo abordados com simplicidade dramática (que se expressa por vias de uma montagem bem conduzida e de uma sensorialidade moderada, mas marcante), aciona os nossos próprios fantasmas e nos fazem pensar, inclusive partindo de alguns sinais narrativos que o filme sugere, sobre as nossas relações espirituais com o tempo e a finitude, que definem a vida destinada, como tudo, a passar.

O quê: sessão de A Ghost Story no Cinematógrafo.
Quando: dia 11 de novembro, sábado, às 16h.
Onde: no Cine XIV, no Pelourinho (veja mapa mais abaixo).
(A contribuição é de R$ 5,00)

O CINEMATÓGRAFO:

O Cinematógrafo no Cine XIV exibe filmes, mensalmente, de variadas formas e temas, sempre no primeiro sábado do mês, às 16h (neste mês de novembro, a sessão será excepcionalmente no segundo sábado do mês, em virtude do feriadão que cai no primeiro). O intuito é instigar conversas sobre os mais diversos problemas contemporâneos, nos campos da política, da estética e da arte em suas relações com a vida. A curadoria é de Camele Queiroz e Fabricio Ramos e os filmes programados são divulgados a cada mês em nossas redes (curta a página no Facebook).  A contribuição é de R$ 5,00 por sessão. Apoie a iniciativa se tornando um membro associado através da anuidade (sessenta reais) que garante acesso às doze sessões anuais.  Fale conosco e participe!

 

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