O CINEMATÓGRAFO RETORNA NO DIA 26 DE JANEIRO, NO CINEMA DO MUSEU

A partir deste mês de janeiro, o Cinematógrafo passa a acontecer no Cinema do Museu, sala do Circuito Saladearte, que fica no Corredor da Vitória. As sessões são mensais, na última sexta-feira do mês, às 20h40.

A sessão de retomada do Cinematógrafo será no dia 26/1, com o filme “A Ghost Story” (2017), de David Lowery, que estava programado para a sessão de dezembro, cancelada por conta do incêndio que consumiu o Cine XIV. O filme, que é uma alegoria sobre a transitoriedade das coisas e a fugacidade de tudo, suscitará questões que remeterão à destruição do Cine XIV. Compareçam! A sessão promete uma boa experiência e uma conversa daquelas.

Nota dos curadores Fabricio Ramos e Camele Queiroz:

Ela (Rooney Mara) e ele (Casey Affleck) são um jovem casal que se prepara para mudar de casa, quando ele morre, num banal acidente de carro. Ela tenta superar a perda repentina, enquanto vive o luto. Ele, entretanto, reaparece na forma de um fantasma silencioso, e volta a habitar a casa em que moravam, oculto em uma dimensão inacessível para ela. Através de deslocamentos temporais, o filme expande o drama pessoal do fantasma até um nível cósmico, oscilando entre apegos às histórias de uma vida e o vislumbre da eternidade. Logo somos instados a acompanhar a “existência” de um fantasma de aspecto cômico, mas que nos atrai por sua dimensão trágica e por sua presença muda e enigmática.

Difícil de classificar, “A Ghost Story”, escrito e dirigido por David Lowery, recorre à iconografia dos fantasmas de quadrinhos infantis: o lençol branco com dois buracos vazios na altura dos olhos. Mas o fantasma de Affleck, embora mudo (será mesmo Affleck ali o tempo todo?) transmite, em seu silêncio e passividade, uma melancolia penetrante que, de imediato, embaralha os códigos da representação arquetípica.

Aliando temas metafísicos com uma subversão paródica de filmes de fantasma, “A Ghost Story” tem sido apontado como um entre vários filmes de um sub-gênero emergente, classificado como pós-terror, que substitui os sustos e as criaturas horripilantes por dramas existenciais em relação com os medos sociais profundos (A Bruxa, de Robert Egger, é um exemplo, e It Comes at Night, de Trey Edward Shults, outro).

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De fato, não obstante a atmosfera indie, uma das cenas de “A Ghost Story” reproduz as típicas assombrações do tipo Poltergeist, embora pelas vias de uma rotação de perspectiva que desloca o lugar do fantasma na ação. Outras referências estéticas mais ou menos evidentes são os filmes de Apichatpong Weerasethakul (certa naturalização do sobrenatural me lembrou “Tio Boonmee”), e os filmes de horror psicológicos de Kubrick, em The Shining, e de Polanski, especialmente o da chamada “trilogia do apartamento”, destacando o famoso O Bebê de Rosemary.

Mas, muito embora o filme de Lowery nos apresente efetivamente uma história de fantasma, ele desvia das convenções do cinema de terror, ignora seus códigos e regras básicas, e constrói um filme sobre a transitoriedade das coisas e a fugacidade de tudo, em contraste com a nossa vontade de permanência e não aceitação da finitude que nos encerra, tal como faz com o fantasma do filme, em uma temporalidade múltipla e sem fim, sem qualquer finalidade que não seja uma desesperada espera por algo que pode não ser nada.

Podemos, se quisermos, avaliar se “A Ghost Story” traduz, com eficácia cinematográfica, uma reflexão filosófica ou poética. Ou, criticamente, discutir se certos elementos estéticos e escolhas narrativas incorrem em clichês pontuais. Trata-se, aliás, de um filme bem modesto, sob todos os aspectos. Mas a amplitude de seus temas, mesmo abordados com simplicidade dramática (que se expressa por vias de uma montagem bem conduzida e de uma sensorialidade moderada, mas marcante), aciona os nossos próprios fantasmas e nos fazem pensar, inclusive partindo de alguns sinais narrativos que o filme sugere, sobre as nossas relações espirituais com o tempo e a finitude, que definem a vida destinada, como tudo, a passar.

SOBRE O CINEMATÓGRAFO

Nós iniciamos o Cinematógrafo, uma mostra de filmes independente, no Rio Vermelho, na Casa 149. Ali, num esquema artesanal de montagem de estrutura de projeção, realizamos sessões durante seis meses, que começaram em dezembro de 2016. Até que, em julho de 2017, fomos convidados a realizar o Cinematógrafo no Cine XIV, que ofereceu, através de uma gentil parceria, toda a estrutura da sala para as exibições e para as conversas que sucediam as sessões. Com o incêndio que consumiu o Cine XIV, interrompemos os encontros para os retomarmos, neste ano que se inicia, no Cinema do Museu, nas noites das últimas sextas-feiras de cada mês, até que o Cine XIV seja restaurado e retorne ainda mais bonito, dono de uma história de resiliência de sensível impacto cultural no centro histórico de Salvador!
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Um comentário em “O CINEMATÓGRAFO RETORNA NO DIA 26 DE JANEIRO, NO CINEMA DO MUSEU”

  1. Republicou isso em arte_documentoe comentado:

    Nós iniciamos o Cinematógrafo, uma mostra de filmes independente, no Rio Vermelho, na Casa 149. Ali, num esquema artesanal de montagem de estrutura de projeção, realizamos sessões durante seis meses, que começaram em dezembro de 2016. Até que, em julho de 2017, fomos convidados a realizar o Cinematógrafo no Cine XIV, que ofereceu, através de uma gentil parceria, toda a estrutura da sala para as exibições e para as conversas que sucediam as sessões. Com o incêndio que consumiu o Cine XIV, interrompemos os encontros para os retomarmos, neste ano que se inicia, no Cinema do Museu, nas noites das últimas sextas-feiras de cada mês, até que o Cine XIV seja restaurado e retorne ainda mais bonito, dono de uma história de resiliência de sensível impacto cultural no centro histórico de Salvador!

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