Cinematógrafo na Saladearte (sáb, 7/4) exibe “Homem Comum” (2014), de Carlos Nader. Confira o TRAILER e nota dos curadores:

O Cinematógrafo na Saladearte de março, por conta da semana santa, acontece excepcionalmente no primeiro sábado de ABRIL, dia 7, às 16h30, no Cinema do Museu.

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Nota dos Curadores do Cinematógrafo, Fabricio Ramos e Camele Queiroz, sobre “Homem Comum”:

Há mais de 20 anos, o cineasta Carlos Nader começou a se aventurar pelas estradas e rodovias do Brasil profundo, interpelando caminhoneiros, estabelecendo com eles conversas triviais até que, repentinamente, redirecionava a conversa para o tema das inquietações existenciais e da sensação de estranhamento diante do enigma da vida.

Num primeiro olhar, suspeitamos que Nader quer fazer expressar-se, através de um choque de sensibilidades distintas que um encontro entre um cineasta sofisticado e um simples caminhoneiro produz, o pensamento daqueles que não estariam “destinados” a pensar. Quê angústias metafísicas, que questionamentos existenciais, um homem ou uma mulher voltados para o aspecto prático da vida expressam e como os expressam?

A atitude de desbravamento de Nader, que inicia um incerto e peculiar road-movie, reconduz os caminhos do próprio filme, transformando a experiência do cineasta a partir de seu encontro com Nilson, o caminhoneiro Nilsão. Emerge entre eles uma espécie de amizade aparentemente destoante, mas fortalecida por algum mistério, por um fascínio mútuo que os une ao longo de uma aventura compartilhada que se estende de 1995 até 2012. Uma aventura que, nas palavras de José Miguel Wisnik sobre “Homem Comum”, realiza “uma extraordinária aproximação ao princípio que reconhece o caráter impenetrável do cotidiano, ao mesmo tempo que o caráter cotidiano do impenetrável”.

É a angústia existencial do cineasta que o move a questionar Nilson sobre a vida, mas é a presença da morte, em meio às tragédias de uma vida como tantas outras, que faz Nilson procurar o cineasta depois de vários anos.

Trata-se de um encontro mediado pelo cinema, não só pelo fazer cinema próprio de Carlos Nader, mas pela inserção, no filme em si e na relação de Nader com Nilson, de cenas do clássico do cinema mundial “A Palavra” (Ordet, 1955), do diretor dinamarquês Carl Theodor Dreyer. Neste clássico, a falta de sentido do mundo e o absurdo da vida são enfrentados e sofridos por seus personagens que, diante do acontecimento fatídico da morte, conclamam, de forma conflituosa e desesperada, o misterioso salto de fé.

São muitas as questões que “Homem Comum”enseja, sobre a vida e a morte, sobre as visões de mundo e sensibilidades marcadas por diferenças profundas, mas unidas, de um modo inalcançável, por um sentimento universal diante de uma vida enigmática, embora carregada de exigências práticas que, não raro, parecem soterrar o caráter impenetrável do cotidiano, mas não resistem a algo mais profundo, mais forte, que em certos momentos arrastam a todos nós para a espiral de uma outra visão da vida e do mundo.

Mas uma das questões que aparecem se dá no campo sensível que subverte as relações e os lugares que certa ordem do mundo define para cada sujeito: precisamente a questão de uma não-adesão fundamental à ordem das coisas que une, essencialmente, o cineasta existencialmente angustiado e o caminhoneiro que diz sequer ter a capacidade de sonhar.

Depois de ver o filme, fica-nos, entre outros sentimentos, o reconhecimento íntimo de que o tema das relações e das diferenças, em vários níveis, oferece mais complexidade do que admitem certos discursos eruditos, e nos sentimos animados a ampliar, a partir de nós mesmos até o outro mais distante, a dimensão das grandes questões, dos grandes sentimentos, que não são grandes por serem raros ou profundos, mas por se fazerem essencialmente presentes em todos nós, mulheres e homens comuns.

TRAILER:

 

SOBRE O CINEMATÓGRAFO

O Cinematógrafo, uma mostra de filmes independente sob curadoria de Camele Queiroz e Fabricio Ramos, cineastas e curadores de Salvador. A iniciativa independente começou no Rio Vermelho, na Casa 149. Ali, num esquema artesanal de montagem de estrutura de projeção, realizou-se sessões durante seis meses, desde dezembro de 2016. Em julho de 2017, fomos convidados a realizar o Cinematógrafo no Cine XIV, sala no Pelourinho, em parceria com o Circuito Saladearte. Com o incêndio que consumiu o Cine XIV, interrompemos os encontros para os retomarmos, neste ano de 2018, no Cinema do Museu, sempre no último sábado de cada mês, às 16h30. O objetivo é, a partir de filmes de variados temas e formas, promover conversas sobre as relações do cinema com questões da vida e suas relações com a arte.
Localização:
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