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[Salvador] Cinematógrafo de agosto (sáb, 25): “Iluminacja” (Iluminação), de Krzysztof Zanussi

Iluminacja (1973) acompanha a educação de um jovem adulto, desde sua entrada na universidade até o doutorado, ao mesmo tempo em que acompanha sua formação interior, seu aprendizado sobre a vida, família, sexualidade e valores morais e espirituais. Duração: 87 min. — País: Polônia. (Cópia legendada em português). Sessão Dia 25 de agosto, às 16h30, na Saladearte — Cinema do Museu.

 

 

Nota dos curadores Camele Queiroz e Fabricio Ramos:

Na primeira cena de Iluminacja, filme do cineasta polonês Krzysztof Zanussi, um filósofo (Władysław Tatarkiewicz, 1886–1980) aparece discorrendo sobre o significado do termo “iluminação”, destacando os sentidos místicos do termo ao longo da história do pensamento. A cena funciona como um prólogo para a metáfora que o filme explora. Um prólogo no sentido em que Borges considerava o termo, dando-lhe uma importância particular: não uma mera apresentação, mas um instrumento para entrever o conjunto de relações que a obra mantém com o mundo. A metáfora que o filme explora se liga à iluminação como “claridade” da razão, um amor à luz tensionado, de forma irônica, pela angústia existencial e pela “construção de si” diante do mundo. E pelo sentimento de simplicidade.

O enredo de Iluminacja, aliás, segue uma estrutura simples: acompanha o início da vida adulta do protagonista, o estudante de física Franciszek, desde o seu ingresso na Universidade até o desenvolvimento de sua tese de doutorado, tempo atravessado por aprendizados sobre a vida e angústias diversas relacionadas aos temas da família, da sexualidade e dos valores morais e espirituais.

Em Iluminacja, a existência de Franciszek acontece como uma experiência que integra diferentes níveis de realidade: o científico, amparado na física e na biologia, ciências que buscam compreender o funcionamento do mundo e, nele, do corpo humano como um complexo bioquímico num mundo ordenado pela natureza; o filosófico, que compreende os dilemas morais, éticos e espirituais; e o político, que no filme se expressa na forma como Franciszek busca se situar no espaço público como um ser pensante.

O diretor Krzysztof Zanussi, que se dedicou ao estudo da física e, depois, da filosofia para enfim se voltar para o cinema, propõe — podemos especular — que o espaço público é também um âmbito espiritual, no interior do qual se manifesta o que os romanos denominaram humanitas, entendendo por isso a qualidade própria do humano, válida sem precisar ser objetiva. O jovem Franciszek atravessa o filme em busca dessa humanitas, ou de sua própria humanidade, ou da Humanität, no sentido em que Kant usou o termo, dando-lhe o significado de personalidade válida, adquirida na aventura da sociabilidade.

De fato, Franciszek enfrenta sente a perda de um amigo que morre durante um procedimento clínico, vivencia a paixão, o casamento e seus conflitos, sofre o drama das limitações materiais, tudo isso ao tempo em que busca a verdade, uma síntese para compreender o cosmo, a iluminação. Cada nova situação de sua vida abre um amplo espaço para pensamentos filosóficos entremeados com passagens que dão ao filme um caráter ensaístico que aborda questões sobre ciência, arte e sobre o que é viver entre a razão, a incompletude, a paixão e a consciência da morte.

 

Trata-se de questões caras a Krzysztof Zanussi e que se manifestam ao longo de sua filmografia. Expoente da nowa fala, a nouvelle vague polonesa, Vanussi conquistou fama internacional já com seu primeiro longa metragem, “A estrutura do cristal” (1969), que reflete sobre os limites da ciência e sobre relações humanas mediadas pelo conhecimento científico, apresentando personagens de visões de mundo diversas e de sensibilidades contrastantes.

Fundamentalmente, Zanussi, através de Franciszek, se coloca e nos coloca a questão: “qual a substância primordial que deve orientar a nossa vida individual e a nossa relação com o mundo e com as nossas paixões”?

O próprio diretor afirmou que o título do filme deve ser tomado como uma ironia, mas isso não traduz a singularidade do filme que, em seu caráter ensaístico e forma experimental, se revela mais como um registro de um fluxo de pensamento do que como uma história dramática. Atravessado por vários discursos (científico, clínico, religioso e político), Iluminacja, ao modo de um prisma, refracta a sua luz na tela do cinema refletindo uma abundância de ideias e visões de mundo que ultrapassa muito o teor irônico, embora não prescinda dele.

Iluminacja teve uma recepção calorosa de público e crítica, ganhando o Leopardo de Ouro do Festival de Locarno de 1973. Sua forma singular, mesclando experimentalismo com delicadeza e simplicidade, encorajou outros artistas experimentais, como Alain Resnais ou Sławomir Shuty, a continuar suas explorações artísticas. Diante de tal experiência de cinema, o público é instado a transitar do mundo das ideias à esfera do pensamento, vendo-se forçado a buscar suas próprias respostas e mesmo suas próprias questões sobre a vida e o mundo.

Iluminacja (Iluminação)

Ano: 1973 — Duração: 87 min. — País: Polônia. (Cópia legendada em português).

Trailer (sem legendas):

O CINEMATÓGRAFO NA SALADEARTE

O Cinematógrafo acontece mensalmente na Saladearte — Cinema do Museu (Corredor da Vitória), sempre no último sábado do mês, exibindo filmes de formas e temas diversificados. A curadoria é dos cineastas Fabricio Ramos e Camele Queiroz e as sessões são sempre seguidas de uma boa conversa sobre o filme, mas também sobre as relações do cinema com a arte e a vida. Os ingressos são vendidos normalmente no local, com preço especial no valor de meia entrada para todos.

Localização:

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Sessão “Double Bill” na Saladearte Cinema da Ufba promove reflexão sobre a utopia e o desencanto dos anos 1960

“Paris nos Pertence”, longa de estreia de Jacques Rivette, e o documentário “Morrer aos 30 anos”, de Romain Goupil; são as atrações da sessão do dia 26 de agosto, às 10h. Um ingresso dá direito a ver os dois filmes.

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Após 50 anos, os ecos de maio de 1968 continuam a reverberar, seja como promessa utópica ou realidade desencantada. Para refletir e agregar novos olhares à questão, dois filmes e um breve bate-papo trazem de volta a atmosfera da década de 1960. Trata-se de mais uma Sessão “Double Bill”, o projeto que movimenta a Saladearte Cinema da Ufba, no domingo (26/08), a partir das 10 horas da manhã, com apoio da Cinemateca da Embaixada da França, no Rio de Janeiro.

No programa, um dos filmes inaugurais do movimento cinematográfico conhecido como Nouvelle Vague, “Paris nos Pertence”, primeiro longa de Jacques Rivette. Completa a sessão, um dos mais contundentes retratos geracionais do período, o documentário “Morrer aos 30 anos”, de Romain Goupil. O público de Salvador vai poder ver as duas obras com um só ingresso. É o conceito da “Double Bill”, que remonta as dobradinhas criadas nos EUA, nos anos 40.

Na versão baiana das tradicionais sessões duplas, além dos filmes, uma apresentação e um bate-papo com o público são organizados pelos curadores do evento, os cineastas Fabricio Ramos e Camele Queiroz e o crítico de cinema Adolfo Gomes. É uma pequena maratona de imersão no cinema, através da filosofia, literatura e outras abordagens transversais — mas com direito a um intervalo de 20 minutos entre os filmes, para o lanche e maior interação dos presentes. A novidade da sessão do dia 26 de agosto é a participação do psicanalista e cinéfilo Lucas Jerzy, que mantém o blog de crítica cultural “O último Baile dos Guermantes” em http://www.ultimobaile.com/ , na condução dos debates.

Cópias restauradas

Como observado por François Truffaut na época do seu lançamento, “Paris nos Pertence” representa a possibilidade do cinema ao alcance de todos, a utopia da mudança de comportamento, da vida material, a partir da linguagem cinematográfica. Ao lado do documentário “Morrer aos 30 anos”, datado de 1982, mas cujos registros remontam o espírito de 1968; essas obras constituem um precioso instantâneo da esperança e do desencanto daquela década. E um atrativo adicional é a disponibilização, por parte da Cinemateca da Embaixada da França no Rio de Janeiro, de cópias restauradas dos dois filmes, trazidas ao Brasil especialmente para a sessão.

Filmes: “Paris nos Pertence”, de Jacques Rivette, e “Morrer aos 30 anos”, de Romain Goupil. Apoio: Cinemateca da Embaixada da França no Rio de Janeiro.

Sinopses dos filmes:

Paris nos Pertence (Paris Nous Appartient, FRA, 1961). Direção: Jacques Rivette. Ficção, 141 minutos. Classificação: 14 anos

Sinopse — Jovem estudante encontra por acaso um grupo de teatro que ensaia exaustivamente, mas sem recurso algum, a peça “Péricles”, de Shakespeare. Quando aceita atuar se descobre envolvida numa misteriosa conspiração política.

Morrer aos 30 anos (Mourir à 30 ans, FRA, 1982). Direção: Romain Goupil. Documentário, 95 minutos

Sinopse — Após o suicídio de seu amigo Michel Récanati, Romain Goupil se interroga a respeito de seu passado militante na extrema esquerda da CAL (Comités d’action lycéens). Ele insere em meio a imagens de assembleias gerais e manifestações em torno de 1968, documentos íntimos e depoimentos de antigos companheiros que partilharam desse momento. Em forma de filme, Goupil traça o retrato de uma geração. Câmera de Ouro no Festival de Cannes de 1982.

Primeira sessão do CinematograFinho exibe “Filhos do Paraíso”. Dia 11/8 (sábado), na Saladearte Cinema do Museu

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No próximo dia 11 de agosto, às 16h30, o CinematograFinho na Saladearte – Cinema do Museu exibe o filme: “Filhos do Paraíso”. A classificação etária é livre e a versão é legendada especialmente para facilitar a leitura por parte das crianças. Ingressos à venda no local (o Cinema do Museu fica no Corredor da Vitória).

O Cinematografinho exibirá filmes que tematizam o universo infantil e/ou valorizem o olhar e o protagonismo de crianças, mas que sejam interessantes tanto para adultos, quanto para jovens e crianças.

O premiado filme iraniano “Filhos do Paraíso” (1998), nos conta a história de dois irmãos, Ali e Zahra, provenientes de uma família humilde de Teerã. Ali, um garoto de nove anos, leva ao sapateiro o par de sapatos velho da sua irmã mais nova Zahra, para reparos, mas o perde no caminho de casa. O detalhe: o sapatinho perdido é o único de Zahra. A partir daí os irmãos passam por muitas aventuras, estabelecendo-se uma cumplicidade sensível entre os dois.

A classificação indicativa é livre. A exibição será com áudio original e legendas em português. A Duração do filme é de 88 min. Colorido.

Mais sobre “Filhos do Paraíso”:

O filme é um retrato simultaneamente tocante e agudo, terno e profundo do universo da infância, equilibrando crítica social, sofrimento, alegria e sensibilidade. Estética e formalmente expressivo (uma marca do cinema iraniano), a obra aborda temas profundos de maneira simples, buscando falar às sensibilidades de todas as idades.

CinematograFinho: o universo da infância para crianças e adultos

g3545O cinema e o universo da infância sob o olhar tanto de adultos quanto de crianças, juntos! É o que propõe o CinematograFinho, mostra de filmes com sessões mensais, fruto da parceria entre o Circuito Saladearte, o Cinematógrafo e a Escola Via Magia.

A iniciativa, de certa forma, é um desdobramento do Cinematógrafo, mostra mensal que já acontece desde 2016 em Salvador, mas que é voltada para um público de jovens e adultos, e cuja curadoria é dos cineastas e pesquisadores Camele Queiroz e Fabricio Ramos. Para Camele, a experiência do Cinematógrafo inspirou o CinematograFinho.

O Circuito Saladearte, parceiro do Cinematógrafo, propôs a nova ação e busca envolver escolas que valorizam a arte como vivência formadora para pensar o formato da mostra, sempre aberto às dinâmicas que o desafio de reunir crianças e adultos num mesmo ambiente e em torno de uma mesma atividade colocam. Assim entrou a Escola Via Magia.

Para Camele, “os filmes do CinematograFinho valorizam o protagonismo do olhar da infância presente em todos nós, por isso interessante tanto para crianças quanto para jovens e adultos, independente das idades. A ideia é incentivar nas crianças, quem sabe, uma relação mais duradoura e reflexiva com os filmes e com o cinema. Para isso, inclusive, sempre que possível, adaptaremos as legendas para facilitar a leitura do público infantil”.

Para Fabricio Ramos, “o esforço do CinematograFinho é o de aliar um programa lúdico dando atenção ao sentimento de inquietude inerente à criança diante da grande novidade do mundo, inquietude da qual os adultos também não são isentos”.

O Circuito Saladearte propõe orientar o espaço para atender a demanda especial, oferecendo espaço para conversas após as sessões, reunindo crianças e adultos, para aqueles que quiserem estender a experiência de ver o filme trocando as primeiras impressões. Importante notar que o CinematograFinho possibilita o acesso a filmes que dificilmente estariam disponíveis para serem vistos numa sala de cinema. Oferece, portanto, uma oportunidade!

A primeira sessão será no dia 11 de agosto (sábado), na Saladearte – Cinema do Museu, às 16h30. Os ingressos serão vendidos normalmente e a programação mensal do CinematograFinho pode ser conferida no site do Circuito Saladearte e na página da mostra nas redes sociais.

Ingressos serão vendidos no local.

O filme exibido será “Filhos do Paraíso”, de Majid Majid (1998, Irã).

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O premiado filme iraniano “Filhos do Paraíso”, nos conta a história de dois irmãos, Ali e Zahra, provenientes de uma família humilde de Teerã. Ali, um garoto de nove anos, leva ao sapateiro o par de sapatos velho da sua irmã mais nova Zahra, para reparos, mas o perde no caminho de casa. O detalhe: o sapatinho perdido é o único de Zahra. A partir daí os irmãos passam por muitas aventuras, estabelecendo-se uma cumplicidade sensível entre os dois.

Mais sobre “Filhos do Paraíso”:

O filme é um retrato simultaneamente tocante e agudo, terno e profundo do universo da infância, equilibrando crítica social, sofrimento, alegria e sensibilidade. Estético e formalmente expressivo (uma marca do cinema iraniano), a obra aborda temas profundos de maneira simples, buscando falar às sensibilidades de todas as idades. A classificação indicativa é livre. A exibição será com áudio original e legendas em português. A Duração do filme é de 88 min. Colorido.

TRAILER:

“Children of Men”: Cinematógrafo de Julho reflete sobre distopia e esperança. Confira a nota dos curadores

O Cinematógrafo de JULHO acontece no dia 28 (sábado), às 16h30, na Saladearte — Cinema do Museu. Ingressos no valor de meia entrada.

Card Julho Cinematógrafo

 

Dos curadores do Cinematógrafo, Camele Q. e Fabricio R.:

O século do cinema coincide com a culminância do mundo que designamos de moderno: o século da razão crítica de si mesma, da morte de Deus, da história como destino humano ou, inversamente, do destino da humanidade como história em frenética progressão. A modernidade, em sua dinâmica revolucionária (a recorrente destruição de uma ordem passada em nome de uma outra ordem mais “justa” e “racional”) destronou o indivíduo da centralidade do mundo para destacar a realidade da sociedade e da espécie. Em termos de valores, a modernidade marca o momento em que saímos da eternidade para a história.

As artes narrativas modernas, e o cinema como sua expressão por excelência, não nos privaram de cenários possíveis que, de uma forma ou de outra, põem em questão esse contínuo progresso como motor do mundo: para onde? De “Alphaville” a “Matrix”, de “Metrópolis” a “Blade Runner”, de “1984” a “Mad Max“, “Fahrenheit 451” e “Laranja Mecânica”, para marcar poucos exemplos, as narrativas distópicas nos encantam e assombram, de forma mais ou menos realista, seja através das promessas ou ameaças de nossas próprias conquistas (a tecnologia ou o poder do Estado), seja pelo deslumbramento da catástrofe apocalíptica.

Frame de “Children of Men” (2006)

Em “Children of Men” (no Brasil, “Filhos da Esperança”), filme britânico-americano de 2006 livremente adaptado do romance The Children of Men, de P. D. James, e dirigido pelo diretor mexicano Alfonso Cuarón, a distopia aparece de forma radical e sutil: em um futuro próximo, a humanidade simples e misteriosamente parou de procriar. A desordem tomou conta do mundo e os estados e as sociedades colapsaram, exceto a Inglaterra, mesmo assim assolada por fome, epidemias e caos social, constituindo-se como um Estado ultra-totalitário que concentra seus esforços no rechaço às ondas de imigrantes do resto do mundo que tentam entrar e permanecer no país, mas são perseguidos, presos e assassinados.

A esperança emerge, inesperadamente, no corpo de uma jovem mulher refugiada. Clive Owen interpreta o funcionário público Theo Faron, que deve ajudá-la a escapar do caos e dos riscos que sua condição impõe. Movimentos de resistência contra o totalitarismo instalado no país lutam pela segurança da jovem que guarda em si a esperança do mundo, talvez a sua última chance. “Children of Men”, lançado em 2006, se passa em 2029, mas as cenas e situações que vemos no filme — mães árabes chorando a morte dos seus filhos, controle draconiano e repressão dos fluxos de imigração, pobreza extrema nas ruas da metrópole, espetacularização e exploração comercial do desastre que se abate sobre a última geração da humanidade — situam a distopia no cotidiano de nossa realidade atual.

Frame de “Children of Men”

Children of Men também é estrelado por Julianne Moore, Michael Caine, Claire-Hope Ashitey, Pam Ferris e Chiwetel Ejiofor. O filme estreou nos Estados Unidos no período das festas natalinas e diversos críticos notaram as relações entre a data de estreia e os temas de esperança, redenção e fé. Bem recebido pela crítica especializada, o filme foi elogiado por suas realizações em fotografia, direção de arte, roteiro e suas inovadoras sequências de ação em planos sequências. Obteve indicações ao Oscar em 2007 nas categorias de Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Fotografia e Melhor Edição. Venceu dois BAFTA Award e recebeu o Saturn Award de Melhor Filme de Ficção Científica.

O CINEMATÓGRAFO NA SALADEARTE

O filme passa no Cinematógrafo de juLHO, que acontece na Saladearte — Cinema do Museu (no Corredor da Vitória, em Salvador), no sábado (28/7), às 16h30. O Cinematógrafo acontece lá mensalmente, sempre no último sábado do mês, exibindo filmes de formas e temas diversificados. A curadoria é dos cineastas Fabricio Ramos e Camele Queiroz e as sessões são sempre seguidas de uma boa conversa sobre o filme, mas também sobre as relações do cinema com a arte e a vida. Os ingressos são vendidos normalmente no local, com preço especial no valor de meia entrada para todos.

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“Quarto Camarim” participa da Mostra TRANSdocumenta em São Paulo

Mostra de cinema, promovida pelo Pacto Global da ONU, acontece em julho, em São Paulo. A sessão de Quarto Camarim será no dia 8, no Museu da Imagem e do Som – MIS.

Poster Quarto CamarimA Rede Brasil do Pacto Global da ONU e a Assessoria Especial para Assuntos Internacionais (AEAI) do governo de São Paulo promovem neste mês e em julho o festival de cinema TRANSdocumenta. A sessão de Quarto Camarim será no Museu da Imagem e do Som (MIS) e será seguida de um “painel sobre pessoas trans no mundo da arte”.

A TRANSdocumenta vai exibir oito filmes de longa e curta-metragem, nacionais e estrangeiros, que abordam o tema da transexualidade. A iniciativa também promoverá atividades culturais, mesas-redondas, pocket shows e a feira de empreendedores LGBTI+, que acontece no encerramento do festival.

A Mostra é parte da agenda “O Mundo Que Queremos”, uma parceria do Pacto Global e da AEAI para comemorar, ao longo de 2018, os 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, ratificada por todos os países-membros da ONU em 10 de dezembro de 1948.

Mais informações no site nacoesunidas.org

 

Cinematógrafo na Saladearte de junho exibe “Serras da Desordem”. Confira a nota dos curadores sobre o filme

[Salvador] O Cinematógrafo de junho (sáb, 30/6, às 16h30, no Cinema do Museu) exibe Serras da Desordem, de Andrea Tonacci. “Há no filme uma proposta de olhar que a ficção não controla, mas que perturba também o pacto documental. – Confira a nota dos curadores do Cinematógrafo:

Cinematógrafo SERRAS JUNHO

Em Serras da Desordem (2006), de Andrea Tonacci, a recorrente imagem do trem sempre em movimento que se impõe na tela, além de remeter à mítica imagem do nascimento do próprio cinema, simboliza o progresso tecnológico e o avanço civilizatório. Se o filme traduz, nas palavras do crítico Daniel Caetano, a “violência do olhar civilizatório” que “através da metáfora do trem em movimento”, dá conta “da construção de um país através de suas imagens”, a obra de Tonacci, que já ocupa um lugar de destaque na cinematografia brasileira, ultrapassa a sua própria metáfora para assumir contornos mais profundos em relação ao seu tema e ao próprio lugar do cinema.

Em sua narrativa, Serras da Desordem nos apresenta a odisseia de Carapiru, índio Awà Guajá que sobreviveu ao massacre de sua tribo por pistoleiros e perambulou pelos sertões do norte e nordeste do país por cerca de dez anos, até ser reintegrado ao que restou de seu grupo, por meio da intervenção estatal. Em sua forma, o filme oscila entre o estilo documental e a ficção, levando ao limite essa indefinição. Tonacci conta que o filme “encena uma história real”. De fato, Carapiru atua no papel de si mesmo, encenando a sua própria história, contada pelo diretor. Inicialmente pensado como um filme de ficção cuja história — a da errância de Carapiru — reverberaria um sentimento de perda vivido por Tonacci, o filme transborda para uma zona de incerteza e de risco que confunde o espectador em seu esforço de situar o filme em um gênero ou de estabelecer um pacto seguro com o que vê na tela: estamos diante de uma ficção ou um documentário? Trata-se de um registro de uma situação real ou de uma encenação? Nem mesmo o suporte ou os procedimentos formais garantem um terreno estável: Serras oscila entre imagens digitais e em película, em cores e em preto e branco, além de alternar entrevistas, encenações, imagens de arquivo e trechos de reportagens televisivas.

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Não obstante toda a incerteza formal e estética de um cinema de risco, inevitavelmente associamos a temática do filme ao drama secular da questão indígena, marcada por uma história de incompreensão, exclusão e genocídio, e por uma relação, como diria Viveiros de Castro, de “desencontro cosmológico” entre nós e eles, sendo que esse “eles” é tudo o que é “não-ocidental, não-moderno, não-humano”.

Mas Serras vai além quando nos oferece uma experiência cinematográfica que nos convoca, para além do tema mais evidente e da forma provocativa, à uma reflexão existencial e, no sentido amplo, “espiritual”, capaz de fazer com que nós nos vejamos refletidos na tragédia individual de Carapiru, contemplando uma imagem de nós mesmos, embora sem nos reconhecer nela, porque Carapiru encarna a imagem do “o outro” absoluto cuja fala sequer entendemos. Porém, de alguma forma, ele participa de nossa própria história como um homem do século XXI que reúne em si mesmo uma sensível síntese histórica e individual de nosso tempo indescritível, de nossa modernidade que o cinema de Tonacci, a um só tempo, expressa e contesta.

Vem da própria trajetória de Tonacci como um cineasta singular essa manifesta consciência do desencontro cosmológico entre índios e brancos na história do Brasil. O diretor, que se foi há menos de dois anos (ele morreu em dezembro de 2016, aos 72 anos), é considerado um dos principais nomes do chamado “cinema marginal” (movimento melhor designado por Jairo Ferreira como Cinema de invenção). Em 1966, dirigiu Olho por Olho, e atuou como fotógrafo de Documentário, ficção de Rogério Sganzerla, ambos curtas metragens. Dirigiu BláBláBlá, de 1968, e Bang-Bang, de 1971, entre outras ficções, e mais tarde se voltou para o método documental, aproximando-se, inclusive, de um uma experiência um tanto etnográfica, quando filmou os índios Canela em Conversas no Maranhão (1977); e Arara, em Os Arara (1983).

Tal trajetória se mostra fundamental para a motivação e determinante para as escolhas que levaram o diretor a realizar Serras da Desordem. Com base em sua experiência, que vincula o cinema à sua própria vida, é que Tonacci transfigura o desencontro cosmológico entre ele e o índio em um encontro entre dois indivíduos, marcado por “um processo de reconhecimento — ou desconhecimento — do outro, de mútua e imediata interferência de um no outro”, como ele declara em entrevista a Daniel Caetano, referindo-se à sua vivência com os índios Canela do Maranhão. Nesse sentido, Serras da Desordem imbrica o nós e o eles e complexifica essa relação por si só problemática, em meio a uma história nossa de “progresso” e destruição que já não ameaça somente Carapiru (que incorpora o eles), mas a nós mesmos que, através do filme de Tonacci, nos apropriamos de sua história para pensarmos, a partir da condição geral do índio, a nossa própria condição moderna.

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O diretor Andrea Tonacci (com a câmera) revela o próprio aparato cinematográfico no filme

Enfim, trata-se de um filme sobre o qual muito já se disse, embora nunca o suficiente, e que descortina uma miríade de questões, sejam políticas e propriamente cinematográficas, sejam mais amplamente ligadas às nossas ideias sobre a vida e o mundo, nossa história, nossas conquistas e nossas tragédias.

Serras da Desordem, portanto, não se resume numa mera crítica histórica, social ou política que se apoia na odisseia de um indivíduo emblemático — um índio: o próprio Tonacci reafirma a sua intenção, não de revelar algo sobre Carapiru, nem tampouco de restituir alguma verdade ou delegar a voz ao outro excluído (coisa que efetivamente ele não faz), mas de oferecer ao expectador uma experiência lacunar, a fim de “permitir um mergulho nesse escuro, nesse desconhecimento” que são os índios para nós, “uma outra humanidade”, como uma fala no próprio filme expressa.

Para introduzir, quem sabe, a conversa que tradicionalmente se segue a sessão do Cinematógrafo, reproduzo uma reflexão de Daniel Caetano, crítico citado anteriormente e que organizou o livro “Serras da Desordem”, publicado pela azougue editorial, infelizmente esgotado. A reflexão de Caetano retoma, a partir de Serras, o tema do espírito da modernidade e da “violência do olhar civilizatório”, que abriu esse texto:

A aparição de Andrea Tonacci ao final do filme — assumindo seu papel como mediador dessa narrativa sobre a trajetória de Carapiru, o índio desterritorializado (…) — gera uma crise revitalizadora ao questionar o espaço deste filme na relação entre um homem que teve sua forma de vida atacada e a civilização que primeiro colonizou seu espaço e posteriormente se apropriou de sua imagem e de sua história para poder refletir sobre si mesma. (Daniel Caetano)

A força dramática de Serras da Desordem reside, inescapavelmente, no fato de Carapiru ser um índio. Mas o fascínio que o filme desperta se liga à sua dimensão de obra única: há no filme uma proposta de olhar que a ficção não controla, mas que perturba também o pacto documental. Um cinema de risco, como já dito, que reflete a própria trajetória criativa de Andrea Tonacci, marcada por qualquer coisa marginal, desafiante das dicotomias propriamente modernas. Trajetória que o situa, entretanto, para muito além das margens: em Serras da Desordem, Andrea Tonacci inventa um cinema, realiza um autêntico cinema de invenção.

— Por Fabricio Ramos e Camele Queiroz, curadores.

 

 

“Serras da Desordem” passa no Cinematógrafo de junho, que acontece na Saladearte — Cinema do Museu (no Corredor da Vitória, em Salvador), no sábado (30/6), às 16h30. O Cinematógrafo acontece lá mensalmente, sempre no último sábado do mês, exibindo filmes de formas e temas diversificados. A curadoria é dos cineastas Fabricio Ramos e Camele Queiroz e as sessões são sempre seguidas de uma boa conversa sobre o filme, mas também sobre as relações do cinema com a arte e a vida.

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Cinematógrafo na Saladearte de maio (sáb, 26/5) apresenta “A última vez que vi Macau”. Leia a nota dos curadores sobre o filme

Por meio de imagens documentais, o filme produz o efeito mágico de um cinema ficcional clássico, intensificado pelas imagens carregadas de mistério. A última vez que vi Macau passa no Cinematógrafo de maio, que acontece na Saladearte – Cinema do Museu (no Corredor da Vitória, em Salvador), no sábado (26/5), às 16h30. – Dos curadores Fabricio Ramos e Camele Queiroz

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Se o Oriente é uma invenção ocidental que marca com o selo do exotismo todos os mundos a leste da Europa, os cineastas João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata, sem incorrer em citações, passeiam pela mistura de estranhamento e intimidade, de mistério e de domínio, que refletem os vínculos profundos entre colonizadores e colonizados que a expansão colonial portuguesa produziu, inclusive, no próprio diretor Guerra da Mata, que viveu parte de sua vida em Macau.

Em A última vez que vi Macau (Portugal, 2012), o próprio cineasta Guerra da Mata, cuja voz conduz a narração do filme, recebe em Portugal uma carta de Macau, enviada por sua amiga Candy, cujas primeiras palavras são: ‘quando leres esta carta eu talvez já esteja morta’. O cineasta, que encarna o personagem que nunca veremos em cena, parte para Macau à procura de Candy na esperança de salvá-la de um perigo de morte insondável, misterioso. O filme começa, aliás, mostrando Candy (Cindy Scrash) cantando You Kill Me (I’m sure that my love will survive/ Because you kill me and keep me so alive). Candy é travesti e vive em Macau há muito tempo, vinda também de Portugal. A carta desesperada que ela enviou ao amigo desencadeia a trama, uma trama contrariada permanentemente pelo estilo documental que revela – da perspectiva da memória de um português – uma Macau em transformação, ocidentalizando-se ao mesmo tempo em que se esquece aos poucos dos mais de quatrocentos anos de colonização portuguesa, cujos traços resistem em nomes de ruas e edifícios, mas se esvanecem nos mistérios e exotismos que tornam a cidade irreconhecível para o próprio Guerra da Mata, ou para o seu personagem que nunca vemos, apenas ouvimos.

A última vez que vi Macau passa pelo tema da representação do Oriente no cinema (a canção que Candy interpreta na abertura vem de Macao (1952), filme de Josef von Sternberg que Nicholas Ray terminou), e se apoia, essencialmente, no tema do imaginário colonizador em tempos pós-coloniais. Mas o filme ultrapassa esses temas sem prescindir de suas funções narrativas. De acordo com a apresentação do filme, a trama de A última vez que vi Macau constrói-se “num plano de contaminação entre as memórias e fantasias de infância de João Rui Guerra da Mata”, que viveu em Macau, “e a procura documental dos vestígios de uma presença nesse território”, acabando por cruzar histórias pessoais dos dois realizadores. Segundo a Academia Portuguesa de Cinema, A última vez que vi Macau é “um filme misterioso, exuberante, que atravessa as fronteiras do cinema e devolve-nos a intimidade da narração”. O filme participou, inclusive, de festivais dedicados ao cinema documental, como o Doc Lisboa.

Insinuando, talvez, certa influência de Chris Marker, o filme, entretanto, elabora uma trama fabular que alguns comentadores classificaram como tributária dos filmes noir, carregada de conspirações, perseguições e assassinato. A fábula, entretanto, nunca foi tão contrariada pelo próprio registro documental que as imagens claramente transmitem. De fato, os cineastas João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata partiram para Macau com o objetivo de realizar um documentário e no meio do processo resolveram “redirecioná-lo rumo à ficção, por meio de um narrador cujas impressões emprestam às imagens um novo sentido”, como pontua Filipe Furtado na Cinética.

A última vez que vi Macau, portanto, antes (ou além) de um documentário, é uma experiência de cinema que reflete certa tendência e desejo dos cineastas de, por meio de imagens documentais, produzir o efeito mágico de um cinema ficcional clássico, efeito intensificado pelas imagens carregadas de mistério e estranhamento que sintetizam, ainda que a isso não se reduza o filme, o olhar distanciado e ao mesmo tempo entranhado do colonizador que já não se reconhece em Macau, nem reconhece Macau.

O filme passa no Cinematógrafo de maio, que acontece na Saladearte – Cinema do Museu (no Corredor da Vitória, em Salvador), no sábado (26/5), às 16h30. O Cinematógrafo acontece lá mensalmente, sempre no último sábado do mês. A curadoria é dos cineastas Fabricio Ramos e Camele Queiroz e as sessões são sempre seguidas de uma boa conversa aberta e diversificada, sobre o filme, mas também sobre as relações do cinema com a arte e a vida.

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Filmes inéditos no Brasil inauguram “Sessão Double Bill” no Circuito de Cinema Saladearte

Um só ingresso vai permitir ao cinéfilo de Salvador ver “O Diabo Provavelmente”, de Robert Bresson, e “Norwegian Wood”, de Tran Anh Hung; duas obras nunca antes exibidas no circuito comercial brasileiro. A Sessão Double Bill será bimensal trará conversas com Adolfo Gomes, um dos curadores do evento!

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Um só ingresso vai permitir ao cinéfilo de Salvador ver “O Diabo Provavelmente”, de Robert Bresson, e “Norwegian Wood”, de Tran Anh Hung; duas obras nunca antes exibidas no circuito comercial brasileiro.

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O conceito é bem simples e atrativo: pagar um ingresso e ver dois filmes. Criadas nos EUA, na década de 1940, as chamadas sessões “Double Bill” já fazem parte da trajetória e do imaginário cinéfilo ao redor do Mundo. E agora é a vez de Salvador experimentar essa “dobradinha” cinematográfica. Sob a curadoria dos cineastas Fabricio Ramos e Camele Queiroz e do crítico de cinema Adolfo Gomes, começa no dia 27 de maio, às 10h, na Saladearte Cinema da Ufba, a versão baiana das tradicionais exibições duplas. E as primeiras atrações são dois filmes inéditos nos cinemas comerciais brasileiros: “O Diabo Provavelmente” (1977), de Robert Bresson, e “Norwegian Wood” (2010), de Tran Anh Hung.

Bate-papo

Mas o…

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Olinda (PE) recebe o filme “Quarto Camarim” no dia 10 de maio, pela Sessão Abraccine

A terceira edição da Sessão Abraccine leva Quarto Camarim para os cinemas de diversas capitais do país. A exibição em Olinda será no dia 10 de maio, no Cineteatro das Faculdades Integradas Barros Melo, às 9h30. Entrada Franca.

Quarto Camarim

A terceira edição da Sessão Abraccine leva Quarto Camarim para os cinemas de diversas capitais do país. A exibição em Olinda será no dia 10 de maio, no Cineteatro das Faculdades Integradas Barros Melo, às 9h30. Entrada Franca.

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Como parte da terceira edição da Sessão Abraccine, evento promovido pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema, o longa metragem Quarto Camarim, de Fabricio Ramos e Camele Queiroz, projeto contemplado pelo Rumos Itaú Cultural 2015-2016, será exibido em Olinda (PE), no dia 10 de maio, no Cineteatro das Faculdades Integradas Barros Melo, às 9h30. A sessão faz parte do Cineclube Ventura e terá entrada franca.

Após participação em três festivais internacionais na Venezuela, na República Dominicana e no Canadá, o filme participa de um ciclo de exibições que vem sendo realizadas em diversas capitais brasileiras. A Abraccine já realizou sessões de Quarto Camarim, sempre seguidas de debates,

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