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Cinematógrafo de setembro (sáb, 29) exibe “Doze Homens e uma Sentença”, de Sidney Lumet

O clássico de 1957 põe em questão a relação entre os valores que orientam o nosso ideário civilizacional e as questões sociais de fundo moral, político e psicológico. Sessão dia 29/9, às 16h30, na Saladerte — Cinema do Museu.

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Nota dos curadores: “Doze homens e uma sentença” (1957), por fabricio ramos e camele queiroz:

O que chamamos modernidade coincide, sintomaticamente, com a era das ideologias. No tempo das ideologias “é preciso decidir-se sobre o assassinato”, como refletiu Albert Camus. Não sobre o assassinato passional, individual. Mas sobre o assassinato institucionalizado, estatal, legal. Se matar passa a ter razões, inclusive razões de estado, é preciso assumir as consequências e buscar responder claramente à questão sobre o fundamento dessas razões, pois todos nós tomamos parte nela.

Em “Doze Homens e uma Sentença” (1957), o primeiro filme do profícuo diretor estadunidense Sidney Lumet, doze homens são convocados pelo Tribunal do Júri para decidir o destino de um jovem de dezoito anos, acusado de um crime hediondo: matar o próprio pai. Há uma regra básica para o veredito: os doze homens devem determinar, por unanimidade, se o jovem é culpado ou inocente. Em caso de dúvidas ou discordância entre eles, prevalecerá a presunção de inocência. Logo no início, o juiz adverte sobre a enorme responsabilidade que os jurados estão assumindo, lembrando a gravidade da pena a ser aplicada no caso de condenação: a pena de morte.

Para muito além da questão jurídica institucional que se instala à primeira vista, “Doze Homens e uma Sentença”, originalmente uma peça feita para a televisão escrita por Reginald Rose e dirigida por Franklin Schaffner (foi ao ar em 1954 nos EUA), põe em questão a relação entre os valores que orientam o nosso ideário civilizacional e as questões sociais de fundo moral, político e psicológico que atuam no nível individual e no das interações humanas. O que está em jogo quando se tem a responsabilidade de julgar o valor da vida do outro, respaldado pelo manto da legalidade e pela reivindicação de valores humanistas? No filme, amparados no discurso da responsabilidade cidadã, os jurados substanciam seus julgamentos, de forma consciente ou não, de boa vontade ou não, a partir de seus próprios preconceitos, interesses pessoais e até traumas individuais, que emergem de um substrato social e cultural carregado de racismo, xenofobia e moralismo. Cabe ao jurado 8, interpretado soberbamente por Henry Fonda, pôr em questão as certezas impensadas que resultam de automatismos apressados, e trazer para o primeiro plano a responsabilidade da reflexão para a tomada de decisões vitais em nome da sociedade.

 

Uma outra frente de discussão pode ser, paralelamente, acionada pelo filme: em tempos do que Tom Zé chamou de “Tribunal do Facebook”, o filme de 1957 pode ser visto em modo de analogia com a era dos ambientes digitais e os frequentes ímpetos de denuncismo, moralismo e embates políticos polarizados que grassam nas redes sociais, e que não raro descambam para dinâmicas acusatórias, de linguagem punitivista e, no limite, para linchamentos virtuais com consequências e proporções devastadoras para a vida de pessoas acusadas e lançadas ao escracho público sem qualquer possibilidade de defesa. Em casos assim, pela própria tendência amplificadora das redes sociais, inexiste qualquer parâmetro ou marco para se verificar sequer a veracidade das acusações. Esse tema se liga àquele da era das ideologias em que a razão política se converte, em certos contextos, em um esforço discursivo de negação do outro.

No âmbito propriamente cinematográfico, considerando especialmente os seus aspectos formais e dramáticos, “Doze Homens e uma Sentença” motiva boas discussões: o filme se passa quase que inteiramente no interior de uma sala e valoriza enfaticamente a performance dos atores e os diálogos entre os personagens. Estilisticamente, Lumet — sempre próximo do realismo — recorre a artifícios como o posicionamento orientado da câmera e de enquadramentos bem delimitados, para causar sensações de claustrofobia, proximidade ou distanciamento, segundo a progressão narrativa. O diretor, que realizou mais de 50 filmes ao longo de sua carreira, é considerado um grande retratista de Nova York e um dos últimos moralistas de Hollywood, cuja obra se debruça sobre temas relacionados às questões éticas e da integridade dos personagens.

“Doze Homens e uma Sentença” é um clássico, um caso raro de primeiro filme de um diretor que se torna obra-prima celebrada por críticos e cinéfilos. O filme foi indicado a três Oscars (Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Roteiro), além de ter ganhado o Leão de Ouro no Festival de Berlim, em 1957. A sua atualidade, entretanto, é incontornável.

12 Angry Men, Estados Unidos, Drama, 1957, 96 minutos. PB. Direção: Sidney Lumet.

O CINEMATÓGRAFO NA SALADEARTE

O Cinematógrafo acontece mensalmente na Saladearte — Cinema do Museu (Corredor da Vitória), sempre no último sábado do mês, exibindo filmes de formas e temas diversificados. A curadoria é dos cineastas Fabricio Ramos e Camele Queiroz e as sessões são sempre seguidas de uma boa conversa sobre o filme, mas também sobre as relações do cinema com a arte e a vida. Os ingressos são vendidos normalmente no local, com preço especial no valor de meia entrada para todos.

Localização: Saladerte – Cinema do Museu, Museu Geológico da Bahia. Corredor da Vitória. Salvador-Ba.

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Sessão vibrante do CinematograFinho de setembro exibiu filme do mestre Miyazaki

Cinematografinho Cartaz Geral

O universo da infância no Cinema para crianças e adultos, juntos! Essa é a novidade que propõe o CinematograFinho, mostra de filmes que acontece uma vez por mês, aos sábados (no segundo sábado do mês), na Saladearte – Cinema do Museu, situada no Corredor da Vitória.  A primeira sessão foi em agosto, com o filme “Filhos do Paraíso”, comovente drama do diretor iraniano Majid Majid. A segunda sessão, que aconteceu no dia 15 de setembro, apresentou “Meu Vizinho Totoro”, do mestre da animação japonês Hayao Miyazaki. A sessão foi tão concorrida que uma sessão extra foi programada para o sábado seguinte, no dia 22.

A ideia é, a cada mês, divulgar a programação e inventar formas de reunir adultos e crianças num programa cultural, juntos! A programação pode ser acompanhada no site do Cinematografinho: https://cinematografo.art.br/

E seguindo a mostra nas redes: no Facebook e no Instagram.

Nas fotos: crianças e adultos conversam sobre o filme e desenham juntos depois da sessão!

 

A curadoria do CinematograFinho, é dos cineastas e pesquisadores Camele Queiroz e Fabricio Ramos. Para Camele, aliás, “o CinematograFinho nos parece, sem dúvida, a ação mais desafiadora, a que mais exige de nós, pois busca incentivar nas crianças uma relação mais duradoura e reflexiva com os filmes e com o cinema, ao mesmo tempo em que quer ser um programa interessante também para jovens e adultos”.

Para os curadores, o desafio de tornar o CinematograFinho um programa de interesse comum para crianças, jovens e adultos, exige cuidados e ações especiais que vão desde a criteriosa escolha dos filmes, que devem trazer temas e formas que não se reduzam à estética infantil dominante, até a adaptação atenciosa das legendas, aumentando sua duração e modificando certas expressões para favorecer a leitura das crianças. O trabalho em cima das legendas é fundamental, diz Camele, pois, “nos casos de filmes de outros países, possibilita às crianças que começam a exercitar a leitura verem filmes nos idiomas originais, experimentarem sonoridades e ritmos próprios de cada língua, tendo contato com outras culturas de forma mais viva e sem sacrificar tanto a atenção às imagens”, comenta a curadora. Aliás, completa Camele, o CinematograFinho possibilita o acesso a filmes que dificilmente estariam disponíveis para serem vistos numa sala de cinema. Oferece, portanto, uma oportunidade!

Para Fabricio Ramos, “o esforço do CinematograFinho é o de aliar um programa lúdico que, ao mesmo tempo, valoriza os sentimentos de inquietude e de curiosidade inerentes às crianças, mas também aos adultos que não se deixam acomodar e se alegram diante da grande novidade que o mundo oferece ao olhar e à vida a cada instante”.

A Saladearte – Cinema do Museu, inclusive, orienta o espaço para atender a demanda especial, oferecendo condições para conversas após as sessões, reunindo crianças e adultos, para aqueles que quiserem estender a experiência trocando as primeiras impressões sobre o filme.

Os ingressos são vendidos no local e a programação mensal do CinematograFinho pode ser conferida no site do Circuito Saladearte e na página da mostra nas redes sociais. O CinematograFinho é fruto da parceria entre o Circuito Saladearte, o Cinematógrafo e a Escola Via Magia.

FOTOS da Sessão de setembro, que apresentou “Meu Vizinho Totoro”, de Hayao Miyazak:

Sessão de MUROS (2015) em Vitória da Conquista, BA

De 11 a 13 de setembro, o campus da UESB em Vitória da Conquista sediará a Jornada de Fotografia e Cinema

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Será realizada entre os dias 11 e 13 de setembro de 2018, a Jornada de Fotografia e Cinema. MUROS (2015), dirigido por Camele Queiroz e Fabricio Ramos e com a participação do fotógrafo Rogério Ferrari, passa no dia 11.9, a partir das 19h.

No dia 12.9, Rogério Ferrari participa do evento e lança o livro “Parentes” às 19h30, na Cazazul Teatro Escola. O livro traz fotografias tiradas em comunidades indígenas na Bahia compondo um trabalho que Rogério realiza há vários anos junto aos povos e movimentos sociais em luta por terra e auto-determinação.

A programação completa, bem como os detalhes sobre inscrição nas oficinas, podem ser acessadas o site da UESB.
 

Segunda Sessão do CinematograFinho apresenta “Meu Vizinho Totoro”, obra do mestre da animação Hayao Miyazaki

Novidade em Salvador: Universo da infância para crianças e adultos curtirem juntos o cinema nas tardes de sábado

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O universo da infância no Cinema para crianças e adultos, juntos! Essa é a novidade que propõe o CinematograFinho, mostra de filmes que acontece aos sábados, uma vez por mês, na Saladearte — Cinema do Museu, situada no Corredor da Vitória. A primeira sessão foi em agosto, com o filme “Filhos do Paraíso”, comovente drama do diretor iraniano Majid Majidi. A segunda sessão, que será no dia 15 de setembro, apresenta “Meu Vizinho Totoro”, do mestre da animação japonês Hayao Miyazaki. O filme é um lindo e poético drama sobre o poder da imaginação e sobre a nossa relação com a natureza, a família e a vida.

A iniciativa é um desdobramento do Cinematógrafo, mostra também mensal que acontece desde 2016 em Salvador, mas que é voltada para um público de jovens e adultos, exibindo filmes que suscitem questões e reflexões sobre as relações entre cinema, arte, política e aspectos da vida cotidiana.

A curadoria, tanto do Cinematógrafo quanto do CinematograFinho, é dos cineastas e pesquisadores Camele Queiroz e Fabricio Ramos. Para Camele, aliás, “o CinematograFinho nos parece, sem dúvida, a ação mais desafiadora, a que mais exige de nós, pois busca incentivar nas crianças uma relação mais duradoura e reflexiva com os filmes e com o cinema, ao mesmo tempo em que quer ser um programa interessante também para jovens e adultos”.

Para os curadores, o desafio de tornar o CinematograFinho um programa de interesse comum para crianças, jovens e adultos, exige cuidados e ações especiais que vão desde a criteriosa escolha dos filmes, que devem trazer temas e formas que não se reduzam à estética infantil dominante, até a adaptação atenciosa das legendas, aumentando sua duração e modificando certas expressões para favorecer a leitura das crianças. O trabalho em cima das legendas é fundamental, diz Camele, pois, “nos casos de filmes de outros países, possibilita às crianças que começam a exercitar a leitura verem filmes nos idiomas originais, experimentarem sonoridades e ritmos próprios de cada língua, tendo contato com outras culturas de forma mais viva e sem sacrificar tanto a atenção às imagens”, comenta a curadora. Aliás, completa Camele, o CinematograFinho possibilita o acesso a filmes que dificilmente estariam disponíveis para serem vistos numa sala de cinema. Oferece, portanto, uma oportunidade!

Para Fabricio Ramos, “o esforço do CinematograFinho é o de aliar um programa lúdico que, ao mesmo tempo, valoriza os sentimentos de inquietude e de curiosidade inerentes às crianças, mas também aos adultos que não se deixam acomodar e se alegram diante da grande novidade que o mundo oferece ao olhar e à vida a cada instante”.

A Saladearte — Cinema do Museu, inclusive, orienta o espaço para atender a demanda especial, oferecendo condições para conversas após as sessões, reunindo crianças e adultos, para aqueles que quiserem estender a experiência trocando as primeiras impressões sobre o filme.

Os ingressos são vendidos no local e a programação mensal do CinematograFinho pode ser conferida no site do Circuito Saladearte e na página da mostra nas redes sociais. O CinematograFinho é fruto da parceria entre o Circuito Saladearte, o Cinematógrafo e a Escola Via Magia.

Sobre o Filme “Meu Vizinho Totoro”

 

A segunda sessão, que será no dia 15 de setembro, apresenta “Meu Vizinho Totoro”, do mestre da animação japonês Hayao Miyazaki. O filme é um lindo e poético drama sobre o poder da imaginação e sobre a nossa relação com a natureza, a família e a vida.

O filme, produzido e lançado em 1988 pelo Estúdio Ghibli, famoso por seus filmes sobre mundos de fantasia infantis, quase sempre protagonizados por crianças, mas com dramaticidade que atrai também o interesse de jovens e adultos.

Em “Meu Vizinho Totoro”, dirigido pelo japonês Hayao Miyazaki, um mestre dos filmes de animação, duas meninas se mudam com o pai para o interior do Japão, com o objetivo de ficar perto da mãe, que está internada em um hospital. Lá, elas viverão muitas aventuras ao lado de um simpático espírito protetor da floresta chamado Totoro, que vive em uma enorme árvore.

Para muitos, Totoro teria uma inspiração autobiográfica, aludindo ao período em que a mãe do diretor ficou internada por anos no hospital de Shichikokuyama, no Japão.

A classificação do filme é livre. A versão exibida é legendada (com legendas especialmente trabalhadas).

CinematograFinho — segunda sessão:

Filme: “Meu Vizinho Totoro” (1988, 85 min., Japão-EUA)

Onde: Na Saladearte — Cinema do Museu, Corredor da Vitória (Salvador).

Quando: dia 15 de setembro, sábado, às 15h.

Quanto custa: 12,00 a meia e 24,00 a inteira

Informações: contato@bahiadoc.com.br

Em agosto, Salvador tem fim de semana especial de cinema: Cinematógrafo (sáb, 25) e Sessão Double Bill (dom, 26)

Neste mês de agosto, dois eventos de Cinema buscam promover encontros com um público diversificado para ver os filmes e conversar sobre as relações do cinema com aspectos da vida e da arte.

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No último fim de semana de agosto, acontecem no Circuito de Cinema — Saladearte dois eventos para quem gosta de filmes e de conversar sobre cinema e suas as relações com a vida, a arte, o pensamento e a política, no sentido amplo do termo.

No sábado (25/8), às 16h30 no Cinema do Museu (Corredor da Vitória), o Cinematógrafo na Saladearte exibe “Iluminação”, filme do diretor polonês Krzysztof Zanussi, um dos expoentes da nowa fala, a nouvelle vague polonesa. O filme, lançado em 1973, acompanha a educação de um jovem adulto, desde sua entrada na universidade até o doutorado, ao mesmo tempo em que acompanha sua formação interior, seu aprendizado sobre a vida, família, sexualidade e valores morais e espirituais. O Cinematógrafo acontece mensalmente no Cinema do Museu, sempre no último sábado de cada mês. A curadoria é dos cineastas Camele Queiroz e Fabricio Ramos (Muros, Quarto Camarim), que programam filmes de formas e temas diversificados e promovem, depois de cada sessão, uma conversa com o público debaixo da grande mangueira no pátio. Ingressos à venda no local no valor único de meia entrada para todos. Leia a nota dos curadores sobre o filme “Iluminação” aqui.

No domingo (26/8), às 10h na Saladearte da UFBA, a segunda Sessão Double Bill valoriza a tradição das matinês dominicais e traz para Salvador o conceito da dobradinha cinematográfica criada nos EUA nos 1940: o público de Salvador vai poder ver dois filmes com um só ingresso. A Sessão traz sempre um tema. Neste domingo, a conversa será sobre “utopia e desencanto nos anos 1960”. No programa, um dos filmes inaugurais do movimento cinematográfico conhecido como Nouvelle Vague, “Paris nos Pertence”, primeiro longa de Jacques Rivette. Completa a sessão, um dos mais contundentes retratos geracionais do período, o documentário “Morrer aos 30 anos”, de Romain Goupil. A ideia da Sessão veio do crítico, programador e curador da Double Bill, Adolfo Gomes. Também participam da curadoria os cineastas Camele Queiroz e Fabricio Ramos. Adolfo apresentará os filmes e conduzirá o bate papo após a sessão. A Sessão Double Bill é bimestral e acontece sempre num domingo, na Saladearte da UFBA. Acesse mais detalhes sobre os filmes e sobre a sessão de agosto aqui.

Cópias restauradas

A Sessão Double Bill, neste mês, tem o apoio da Cinemateca Francesa no Brasil, que disponibilizou cópias restauradas dos dois filmes, trazidas ao Brasil especialmente para a sessão.

Um dos atrativos dos dois eventos, Cinematógrafo, que é mensal, e Double Bill, que é bimestral, é a oportunidade de ver filmes que dificilmente seriam exibidos em salas de cinema na cidade. Os usuários das redes sociais podem acompanhar a programação dos eventos nas respectivas páginas do Facebook: Cinematógrafo na Saladearte e Sessão Double Bill.

[Salvador] Cinematógrafo de agosto (sáb, 25): “Iluminacja” (Iluminação), de Krzysztof Zanussi

Iluminacja (1973) acompanha a educação de um jovem adulto, desde sua entrada na universidade até o doutorado, ao mesmo tempo em que acompanha sua formação interior, seu aprendizado sobre a vida, família, sexualidade e valores morais e espirituais. Duração: 87 min. — País: Polônia. (Cópia legendada em português). Sessão Dia 25 de agosto, às 16h30, na Saladearte — Cinema do Museu.

 

 

Nota dos curadores Camele Queiroz e Fabricio Ramos:

Na primeira cena de Iluminacja, filme do cineasta polonês Krzysztof Zanussi, um filósofo (Władysław Tatarkiewicz, 1886–1980) aparece discorrendo sobre o significado do termo “iluminação”, destacando os sentidos místicos do termo ao longo da história do pensamento. A cena funciona como um prólogo para a metáfora que o filme explora. Um prólogo no sentido em que Borges considerava o termo, dando-lhe uma importância particular: não uma mera apresentação, mas um instrumento para entrever o conjunto de relações que a obra mantém com o mundo. A metáfora que o filme explora se liga à iluminação como “claridade” da razão, um amor à luz tensionado, de forma irônica, pela angústia existencial e pela “construção de si” diante do mundo. E pelo sentimento de simplicidade.

O enredo de Iluminacja, aliás, segue uma estrutura simples: acompanha o início da vida adulta do protagonista, o estudante de física Franciszek, desde o seu ingresso na Universidade até o desenvolvimento de sua tese de doutorado, tempo atravessado por aprendizados sobre a vida e angústias diversas relacionadas aos temas da família, da sexualidade e dos valores morais e espirituais.

Em Iluminacja, a existência de Franciszek acontece como uma experiência que integra diferentes níveis de realidade: o científico, amparado na física e na biologia, ciências que buscam compreender o funcionamento do mundo e, nele, do corpo humano como um complexo bioquímico num mundo ordenado pela natureza; o filosófico, que compreende os dilemas morais, éticos e espirituais; e o político, que no filme se expressa na forma como Franciszek busca se situar no espaço público como um ser pensante.

O diretor Krzysztof Zanussi, que se dedicou ao estudo da física e, depois, da filosofia para enfim se voltar para o cinema, propõe — podemos especular — que o espaço público é também um âmbito espiritual, no interior do qual se manifesta o que os romanos denominaram humanitas, entendendo por isso a qualidade própria do humano, válida sem precisar ser objetiva. O jovem Franciszek atravessa o filme em busca dessa humanitas, ou de sua própria humanidade, ou da Humanität, no sentido em que Kant usou o termo, dando-lhe o significado de personalidade válida, adquirida na aventura da sociabilidade.

De fato, Franciszek sente a perda de um amigo que morre durante um procedimento clínico, vivencia a paixão, o casamento e seus conflitos, sofre o drama das limitações materiais, tudo isso ao tempo em que busca a verdade, uma síntese para compreender o cosmo, a iluminação. Cada nova situação de sua vida abre um amplo espaço para pensamentos filosóficos entremeados com passagens que dão ao filme um caráter ensaístico que aborda questões sobre ciência, arte e sobre o que é viver entre a razão, a incompletude, a paixão e a consciência da morte.

 

Trata-se de questões caras a Krzysztof Zanussi e que se manifestam ao longo de sua filmografia. Expoente da nowa fala, a nouvelle vague polonesa, Zanussi conquistou fama internacional já com seu primeiro longa metragem, “A estrutura do cristal” (1969), que reflete sobre os limites da ciência e sobre relações humanas mediadas pelo conhecimento científico, apresentando personagens de visões de mundo diversas e de sensibilidades contrastantes.

Fundamentalmente, Zanussi, através de Franciszek, se coloca e nos coloca a questão: “qual a substância primordial que deve orientar a nossa vida individual e a nossa relação com o mundo e com as nossas paixões”?

O próprio diretor afirmou que o título do filme deve ser tomado como uma ironia, mas isso não traduz a singularidade do filme que, em seu caráter ensaístico e forma experimental, se revela mais como um registro de um fluxo de pensamento do que como uma história dramática. Atravessado por vários discursos (científico, clínico, religioso e político), Iluminacja, ao modo de um prisma, refracta a sua luz na tela do cinema refletindo uma abundância de ideias e visões de mundo que ultrapassa muito o teor irônico, embora não prescinda dele.

Iluminacja teve uma recepção calorosa de público e crítica, ganhando o Leopardo de Ouro do Festival de Locarno de 1973. Sua forma singular, mesclando experimentalismo com delicadeza e simplicidade, encorajou outros artistas experimentais, como Alain Resnais ou Sławomir Shuty, a continuar suas explorações artísticas. Diante de tal experiência de cinema, o público é instado a transitar do mundo das ideias à esfera do pensamento, vendo-se forçado a buscar suas próprias respostas e mesmo suas próprias questões sobre a vida e o mundo.

Iluminacja (Iluminação)

Ano: 1973 — Duração: 87 min. — País: Polônia. (Cópia legendada em português).

Trailer (sem legendas):

 

O CINEMATÓGRAFO NA SALADEARTE

O Cinematógrafo acontece mensalmente na Saladearte — Cinema do Museu (Corredor da Vitória), sempre no último sábado do mês, exibindo filmes de formas e temas diversificados. A curadoria é dos cineastas Fabricio Ramos e Camele Queiroz e as sessões são sempre seguidas de uma boa conversa sobre o filme, mas também sobre as relações do cinema com a arte e a vida. Os ingressos são vendidos normalmente no local, com preço especial no valor de meia entrada para todos.

Localização:

Sessão “Double Bill” na Saladearte Cinema da Ufba promove reflexão sobre a utopia e o desencanto dos anos 1960

“Paris nos Pertence”, longa de estreia de Jacques Rivette, e o documentário “Morrer aos 30 anos”, de Romain Goupil; são as atrações da sessão do dia 26 de agosto, às 10h. Um ingresso dá direito a ver os dois filmes.

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Após 50 anos, os ecos de maio de 1968 continuam a reverberar, seja como promessa utópica ou realidade desencantada. Para refletir e agregar novos olhares à questão, dois filmes e um breve bate-papo trazem de volta a atmosfera da década de 1960. Trata-se de mais uma Sessão “Double Bill”, o projeto que movimenta a Saladearte Cinema da Ufba, no domingo (26/08), a partir das 10 horas da manhã, com apoio da Cinemateca da Embaixada da França, no Rio de Janeiro.

No programa, um dos filmes inaugurais do movimento cinematográfico conhecido como Nouvelle Vague, “Paris nos Pertence”, primeiro longa de Jacques Rivette. Completa a sessão, um dos mais contundentes retratos geracionais do período, o documentário “Morrer aos 30 anos”, de Romain Goupil. O público de Salvador vai poder ver as duas obras com um só ingresso. É o conceito da “Double Bill”, que remonta as dobradinhas criadas nos EUA, nos anos 40.

Na versão baiana das tradicionais sessões duplas, além dos filmes, uma apresentação e um bate-papo com o público são organizados pelos curadores do evento, os cineastas Fabricio Ramos e Camele Queiroz e o crítico de cinema Adolfo Gomes. É uma pequena maratona de imersão no cinema, através da filosofia, literatura e outras abordagens transversais — mas com direito a um intervalo de 20 minutos entre os filmes, para o lanche e maior interação dos presentes. A novidade da sessão do dia 26 de agosto é a participação do psicanalista e cinéfilo Lucas Jerzy, que mantém o blog de crítica cultural “O último Baile dos Guermantes” em http://www.ultimobaile.com/ , na condução dos debates.

Cópias restauradas

Como observado por François Truffaut na época do seu lançamento, “Paris nos Pertence” representa a possibilidade do cinema ao alcance de todos, a utopia da mudança de comportamento, da vida material, a partir da linguagem cinematográfica. Ao lado do documentário “Morrer aos 30 anos”, datado de 1982, mas cujos registros remontam o espírito de 1968; essas obras constituem um precioso instantâneo da esperança e do desencanto daquela década. E um atrativo adicional é a disponibilização, por parte da Cinemateca da Embaixada da França no Rio de Janeiro, de cópias restauradas dos dois filmes, trazidas ao Brasil especialmente para a sessão.

Filmes: “Paris nos Pertence”, de Jacques Rivette, e “Morrer aos 30 anos”, de Romain Goupil. Apoio: Cinemateca da Embaixada da França no Rio de Janeiro.

Sinopses dos filmes:

Paris nos Pertence (Paris Nous Appartient, FRA, 1961). Direção: Jacques Rivette. Ficção, 141 minutos. Classificação: 14 anos

Sinopse — Jovem estudante encontra por acaso um grupo de teatro que ensaia exaustivamente, mas sem recurso algum, a peça “Péricles”, de Shakespeare. Quando aceita atuar se descobre envolvida numa misteriosa conspiração política.

Morrer aos 30 anos (Mourir à 30 ans, FRA, 1982). Direção: Romain Goupil. Documentário, 95 minutos

Sinopse — Após o suicídio de seu amigo Michel Récanati, Romain Goupil se interroga a respeito de seu passado militante na extrema esquerda da CAL (Comités d’action lycéens). Ele insere em meio a imagens de assembleias gerais e manifestações em torno de 1968, documentos íntimos e depoimentos de antigos companheiros que partilharam desse momento. Em forma de filme, Goupil traça o retrato de uma geração. Câmera de Ouro no Festival de Cannes de 1982.

Primeira sessão do CinematograFinho exibe “Filhos do Paraíso”. Dia 11/8 (sábado), na Saladearte Cinema do Museu

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No próximo dia 11 de agosto, às 16h30, o CinematograFinho na Saladearte – Cinema do Museu exibe o filme: “Filhos do Paraíso”. A classificação etária é livre e a versão é legendada especialmente para facilitar a leitura por parte das crianças. Ingressos à venda no local (o Cinema do Museu fica no Corredor da Vitória).

O Cinematografinho exibirá filmes que tematizam o universo infantil e/ou valorizem o olhar e o protagonismo de crianças, mas que sejam interessantes tanto para adultos, quanto para jovens e crianças.

O premiado filme iraniano “Filhos do Paraíso” (1998), nos conta a história de dois irmãos, Ali e Zahra, provenientes de uma família humilde de Teerã. Ali, um garoto de nove anos, leva ao sapateiro o par de sapatos velho da sua irmã mais nova Zahra, para reparos, mas o perde no caminho de casa. O detalhe: o sapatinho perdido é o único de Zahra. A partir daí os irmãos passam por muitas aventuras, estabelecendo-se uma cumplicidade sensível entre os dois.

A classificação indicativa é livre. A exibição será com áudio original e legendas em português. A Duração do filme é de 88 min. Colorido.

Mais sobre “Filhos do Paraíso”:

O filme é um retrato simultaneamente tocante e agudo, terno e profundo do universo da infância, equilibrando crítica social, sofrimento, alegria e sensibilidade. Estética e formalmente expressivo (uma marca do cinema iraniano), a obra aborda temas profundos de maneira simples, buscando falar às sensibilidades de todas as idades.

CinematograFinho: o universo da infância para crianças e adultos

g3545O cinema e o universo da infância sob o olhar tanto de adultos quanto de crianças, juntos! É o que propõe o CinematograFinho, mostra de filmes com sessões mensais, fruto da parceria entre o Circuito Saladearte, o Cinematógrafo e a Escola Via Magia.

A iniciativa, de certa forma, é um desdobramento do Cinematógrafo, mostra mensal que já acontece desde 2016 em Salvador, mas que é voltada para um público de jovens e adultos, e cuja curadoria é dos cineastas e pesquisadores Camele Queiroz e Fabricio Ramos. Para Camele, a experiência do Cinematógrafo inspirou o CinematograFinho.

O Circuito Saladearte, parceiro do Cinematógrafo, propôs a nova ação e busca envolver escolas que valorizam a arte como vivência formadora para pensar o formato da mostra, sempre aberto às dinâmicas que o desafio de reunir crianças e adultos num mesmo ambiente e em torno de uma mesma atividade colocam. Assim entrou a Escola Via Magia.

Para Camele, “os filmes do CinematograFinho valorizam o protagonismo do olhar da infância presente em todos nós, por isso interessante tanto para crianças quanto para jovens e adultos, independente das idades. A ideia é incentivar nas crianças, quem sabe, uma relação mais duradoura e reflexiva com os filmes e com o cinema. Para isso, inclusive, sempre que possível, adaptaremos as legendas para facilitar a leitura do público infantil”.

Para Fabricio Ramos, “o esforço do CinematograFinho é o de aliar um programa lúdico dando atenção ao sentimento de inquietude inerente à criança diante da grande novidade do mundo, inquietude da qual os adultos também não são isentos”.

O Circuito Saladearte propõe orientar o espaço para atender a demanda especial, oferecendo espaço para conversas após as sessões, reunindo crianças e adultos, para aqueles que quiserem estender a experiência de ver o filme trocando as primeiras impressões. Importante notar que o CinematograFinho possibilita o acesso a filmes que dificilmente estariam disponíveis para serem vistos numa sala de cinema. Oferece, portanto, uma oportunidade!

A primeira sessão será no dia 11 de agosto (sábado), na Saladearte – Cinema do Museu, às 16h30. Os ingressos serão vendidos normalmente e a programação mensal do CinematograFinho pode ser conferida no site do Circuito Saladearte e na página da mostra nas redes sociais.

Ingressos serão vendidos no local.

O filme exibido será “Filhos do Paraíso”, de Majid Majid (1998, Irã).

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O premiado filme iraniano “Filhos do Paraíso”, nos conta a história de dois irmãos, Ali e Zahra, provenientes de uma família humilde de Teerã. Ali, um garoto de nove anos, leva ao sapateiro o par de sapatos velho da sua irmã mais nova Zahra, para reparos, mas o perde no caminho de casa. O detalhe: o sapatinho perdido é o único de Zahra. A partir daí os irmãos passam por muitas aventuras, estabelecendo-se uma cumplicidade sensível entre os dois.

Mais sobre “Filhos do Paraíso”:

O filme é um retrato simultaneamente tocante e agudo, terno e profundo do universo da infância, equilibrando crítica social, sofrimento, alegria e sensibilidade. Estético e formalmente expressivo (uma marca do cinema iraniano), a obra aborda temas profundos de maneira simples, buscando falar às sensibilidades de todas as idades. A classificação indicativa é livre. A exibição será com áudio original e legendas em português. A Duração do filme é de 88 min. Colorido.

TRAILER:

“Children of Men”: Cinematógrafo de Julho reflete sobre distopia e esperança. Confira a nota dos curadores

O Cinematógrafo de JULHO acontece no dia 28 (sábado), às 16h30, na Saladearte — Cinema do Museu. Ingressos no valor de meia entrada.

Card Julho Cinematógrafo

 

Dos curadores do Cinematógrafo, Camele Q. e Fabricio R.:

O século do cinema coincide com a culminância do mundo que designamos de moderno: o século da razão crítica de si mesma, da morte de Deus, da história como destino humano ou, inversamente, do destino da humanidade como história em frenética progressão. A modernidade, em sua dinâmica revolucionária (a recorrente destruição de uma ordem passada em nome de uma outra ordem mais “justa” e “racional”) destronou o indivíduo da centralidade do mundo para destacar a realidade da sociedade e da espécie. Em termos de valores, a modernidade marca o momento em que saímos da eternidade para a história.

As artes narrativas modernas, e o cinema como sua expressão por excelência, não nos privaram de cenários possíveis que, de uma forma ou de outra, põem em questão esse contínuo progresso como motor do mundo: para onde? De “Alphaville” a “Matrix”, de “Metrópolis” a “Blade Runner”, de “1984” a “Mad Max“, “Fahrenheit 451” e “Laranja Mecânica”, para marcar poucos exemplos, as narrativas distópicas nos encantam e assombram, de forma mais ou menos realista, seja através das promessas ou ameaças de nossas próprias conquistas (a tecnologia ou o poder do Estado), seja pelo deslumbramento da catástrofe apocalíptica.

Frame de “Children of Men” (2006)

Em “Children of Men” (no Brasil, “Filhos da Esperança”), filme britânico-americano de 2006 livremente adaptado do romance The Children of Men, de P. D. James, e dirigido pelo diretor mexicano Alfonso Cuarón, a distopia aparece de forma radical e sutil: em um futuro próximo, a humanidade simples e misteriosamente parou de procriar. A desordem tomou conta do mundo e os estados e as sociedades colapsaram, exceto a Inglaterra, mesmo assim assolada por fome, epidemias e caos social, constituindo-se como um Estado ultra-totalitário que concentra seus esforços no rechaço às ondas de imigrantes do resto do mundo que tentam entrar e permanecer no país, mas são perseguidos, presos e assassinados.

A esperança emerge, inesperadamente, no corpo de uma jovem mulher refugiada. Clive Owen interpreta o funcionário público Theo Faron, que deve ajudá-la a escapar do caos e dos riscos que sua condição impõe. Movimentos de resistência contra o totalitarismo instalado no país lutam pela segurança da jovem que guarda em si a esperança do mundo, talvez a sua última chance. “Children of Men”, lançado em 2006, se passa em 2029, mas as cenas e situações que vemos no filme — mães árabes chorando a morte dos seus filhos, controle draconiano e repressão dos fluxos de imigração, pobreza extrema nas ruas da metrópole, espetacularização e exploração comercial do desastre que se abate sobre a última geração da humanidade — situam a distopia no cotidiano de nossa realidade atual.

Frame de “Children of Men”

Children of Men também é estrelado por Julianne Moore, Michael Caine, Claire-Hope Ashitey, Pam Ferris e Chiwetel Ejiofor. O filme estreou nos Estados Unidos no período das festas natalinas e diversos críticos notaram as relações entre a data de estreia e os temas de esperança, redenção e fé. Bem recebido pela crítica especializada, o filme foi elogiado por suas realizações em fotografia, direção de arte, roteiro e suas inovadoras sequências de ação em planos sequências. Obteve indicações ao Oscar em 2007 nas categorias de Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Fotografia e Melhor Edição. Venceu dois BAFTA Award e recebeu o Saturn Award de Melhor Filme de Ficção Científica.

O CINEMATÓGRAFO NA SALADEARTE

O filme passa no Cinematógrafo de juLHO, que acontece na Saladearte — Cinema do Museu (no Corredor da Vitória, em Salvador), no sábado (28/7), às 16h30. O Cinematógrafo acontece lá mensalmente, sempre no último sábado do mês, exibindo filmes de formas e temas diversificados. A curadoria é dos cineastas Fabricio Ramos e Camele Queiroz e as sessões são sempre seguidas de uma boa conversa sobre o filme, mas também sobre as relações do cinema com a arte e a vida. Os ingressos são vendidos normalmente no local, com preço especial no valor de meia entrada para todos.

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