Cinematógrafo na Saladearte de junho exibe “Serras da Desordem”. Confira a nota dos curadores sobre o filme

[Salvador] O Cinematógrafo de junho (sáb, 30/6, às 16h30, no Cinema do Museu) exibe Serras da Desordem, de Andrea Tonacci. “Há no filme uma proposta de olhar que a ficção não controla, mas que perturba também o pacto documental. – Confira a nota dos curadores do Cinematógrafo:

Cinematógrafo SERRAS JUNHO

Em Serras da Desordem (2006), de Andrea Tonacci, a recorrente imagem do trem sempre em movimento que se impõe na tela, além de remeter à mítica imagem do nascimento do próprio cinema, simboliza o progresso tecnológico e o avanço civilizatório. Se o filme traduz, nas palavras do crítico Daniel Caetano, a “violência do olhar civilizatório” que “através da metáfora do trem em movimento”, dá conta “da construção de um país através de suas imagens”, a obra de Tonacci, que já ocupa um lugar de destaque na cinematografia brasileira, ultrapassa a sua própria metáfora para assumir contornos mais profundos em relação ao seu tema e ao próprio lugar do cinema.

Em sua narrativa, Serras da Desordem nos apresenta a odisseia de Carapiru, índio Awà Guajá que sobreviveu ao massacre de sua tribo por pistoleiros e perambulou pelos sertões do norte e nordeste do país por cerca de dez anos, até ser reintegrado ao que restou de seu grupo, por meio da intervenção estatal. Em sua forma, o filme oscila entre o estilo documental e a ficção, levando ao limite essa indefinição. Tonacci conta que o filme “encena uma história real”. De fato, Carapiru atua no papel de si mesmo, encenando a sua própria história, contada pelo diretor. Inicialmente pensado como um filme de ficção cuja história — a da errância de Carapiru — reverberaria um sentimento de perda vivido por Tonacci, o filme transborda para uma zona de incerteza e de risco que confunde o espectador em seu esforço de situar o filme em um gênero ou de estabelecer um pacto seguro com o que vê na tela: estamos diante de uma ficção ou um documentário? Trata-se de um registro de uma situação real ou de uma encenação? Nem mesmo o suporte ou os procedimentos formais garantem um terreno estável: Serras oscila entre imagens digitais e em película, em cores e em preto e branco, além de alternar entrevistas, encenações, imagens de arquivo e trechos de reportagens televisivas.

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Não obstante toda a incerteza formal e estética de um cinema de risco, inevitavelmente associamos a temática do filme ao drama secular da questão indígena, marcada por uma história de incompreensão, exclusão e genocídio, e por uma relação, como diria Viveiros de Castro, de “desencontro cosmológico” entre nós e eles, sendo que esse “eles” é tudo o que é “não-ocidental, não-moderno, não-humano”.

Mas Serras vai além quando nos oferece uma experiência cinematográfica que nos convoca, para além do tema mais evidente e da forma provocativa, à uma reflexão existencial e, no sentido amplo, “espiritual”, capaz de fazer com que nós nos vejamos refletidos na tragédia individual de Carapiru, contemplando uma imagem de nós mesmos, embora sem nos reconhecer nela, porque Carapiru encarna a imagem do “o outro” absoluto cuja fala sequer entendemos. Porém, de alguma forma, ele participa de nossa própria história como um homem do século XXI que reúne em si mesmo uma sensível síntese histórica e individual de nosso tempo indescritível, de nossa modernidade que o cinema de Tonacci, a um só tempo, expressa e contesta.

Vem da própria trajetória de Tonacci como um cineasta singular essa manifesta consciência do desencontro cosmológico entre índios e brancos na história do Brasil. O diretor, que se foi há menos de dois anos (ele morreu em dezembro de 2016, aos 72 anos), é considerado um dos principais nomes do chamado “cinema marginal” (movimento melhor designado por Jairo Ferreira como Cinema de invenção). Em 1966, dirigiu Olho por Olho, e atuou como fotógrafo de Documentário, ficção de Rogério Sganzerla, ambos curtas metragens. Dirigiu BláBláBlá, de 1968, e Bang-Bang, de 1971, entre outras ficções, e mais tarde se voltou para o método documental, aproximando-se, inclusive, de um uma experiência um tanto etnográfica, quando filmou os índios Canela em Conversas no Maranhão (1977); e Arara, em Os Arara (1983).

Tal trajetória se mostra fundamental para a motivação e determinante para as escolhas que levaram o diretor a realizar Serras da Desordem. Com base em sua experiência, que vincula o cinema à sua própria vida, é que Tonacci transfigura o desencontro cosmológico entre ele e o índio em um encontro entre dois indivíduos, marcado por “um processo de reconhecimento — ou desconhecimento — do outro, de mútua e imediata interferência de um no outro”, como ele declara em entrevista a Daniel Caetano, referindo-se à sua vivência com os índios Canela do Maranhão. Nesse sentido, Serras da Desordem imbrica o nós e o eles e complexifica essa relação por si só problemática, em meio a uma história nossa de “progresso” e destruição que já não ameaça somente Carapiru (que incorpora o eles), mas a nós mesmos que, através do filme de Tonacci, nos apropriamos de sua história para pensarmos, a partir da condição geral do índio, a nossa própria condição moderna.

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O diretor Andrea Tonacci (com a câmera) revela o próprio aparato cinematográfico no filme

Enfim, trata-se de um filme sobre o qual muito já se disse, embora nunca o suficiente, e que descortina uma miríade de questões, sejam políticas e propriamente cinematográficas, sejam mais amplamente ligadas às nossas ideias sobre a vida e o mundo, nossa história, nossas conquistas e nossas tragédias.

Serras da Desordem, portanto, não se resume numa mera crítica histórica, social ou política que se apoia na odisseia de um indivíduo emblemático — um índio: o próprio Tonacci reafirma a sua intenção, não de revelar algo sobre Carapiru, nem tampouco de restituir alguma verdade ou delegar a voz ao outro excluído (coisa que efetivamente ele não faz), mas de oferecer ao expectador uma experiência lacunar, a fim de “permitir um mergulho nesse escuro, nesse desconhecimento” que são os índios para nós, “uma outra humanidade”, como uma fala no próprio filme expressa.

Para introduzir, quem sabe, a conversa que tradicionalmente se segue a sessão do Cinematógrafo, reproduzo uma reflexão de Daniel Caetano, crítico citado anteriormente e que organizou o livro “Serras da Desordem”, publicado pela azougue editorial, infelizmente esgotado. A reflexão de Caetano retoma, a partir de Serras, o tema do espírito da modernidade e da “violência do olhar civilizatório”, que abriu esse texto:

A aparição de Andrea Tonacci ao final do filme — assumindo seu papel como mediador dessa narrativa sobre a trajetória de Carapiru, o índio desterritorializado (…) — gera uma crise revitalizadora ao questionar o espaço deste filme na relação entre um homem que teve sua forma de vida atacada e a civilização que primeiro colonizou seu espaço e posteriormente se apropriou de sua imagem e de sua história para poder refletir sobre si mesma. (Daniel Caetano)

A força dramática de Serras da Desordem reside, inescapavelmente, no fato de Carapiru ser um índio. Mas o fascínio que o filme desperta se liga à sua dimensão de obra única: há no filme uma proposta de olhar que a ficção não controla, mas que perturba também o pacto documental. Um cinema de risco, como já dito, que reflete a própria trajetória criativa de Andrea Tonacci, marcada por qualquer coisa marginal, desafiante das dicotomias propriamente modernas. Trajetória que o situa, entretanto, para muito além das margens: em Serras da Desordem, Andrea Tonacci inventa um cinema, realiza um autêntico cinema de invenção.

— Por Fabricio Ramos e Camele Queiroz, curadores.

 

 

“Serras da Desordem” passa no Cinematógrafo de junho, que acontece na Saladearte — Cinema do Museu (no Corredor da Vitória, em Salvador), no sábado (30/6), às 16h30. O Cinematógrafo acontece lá mensalmente, sempre no último sábado do mês, exibindo filmes de formas e temas diversificados. A curadoria é dos cineastas Fabricio Ramos e Camele Queiroz e as sessões são sempre seguidas de uma boa conversa sobre o filme, mas também sobre as relações do cinema com a arte e a vida.

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